O político português André Ventura divulgou recentemente, na sua página oficial do Facebook, um vídeo no qual afirma que, “nos últimos 8 anos, a pobreza em Angola aumentou 80%”. A declaração surge como resposta às palavras do Presidente angolano, João Lourenço, sobre os impactos históricos do colonialismo português no país.
A afirmação chamou a atenção de vários internautas, que questionaram a veracidade dos números apresentados.
A equipa do Verifica.ao analisou a alegação e concluiu que a informação é enganosa.
O que dizem os dados?
World Poverty Clock
A ferramenta World Poverty Clock (World Data Lab), frequentemente citada por órgãos de comunicação internacionais, aponta para um aumento significativo da pobreza extrema em Angola entre 2017 e 2025 — cerca de 80%, em número absoluto de pessoas.
Segundo estimativas divulgadas por esta plataforma, o número de angolanos em extrema pobreza terá passado de aproximadamente 6,4 milhões (2016/2017) para 11,6 milhões (2025).
Se Ventura utilizou esta fonte, a percentagem tem respaldo.
Outras fontes internacionais
No entanto, outras instituições de referência não confirmam necessariamente este valor, porque:
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Utilizam linhas internacionais de pobreza diferentes (ex.: 2.15 USD/dia, 3.65 USD/dia em PPP);
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Baseiam-se em inquéritos nacionais mais antigos (o último comparável do Banco Mundial é de 2018);
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Têm metodologias distintas para medir pobreza, nomeadamente:
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World Bank (Banco Mundial)
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AfDB (Banco Africano de Desenvolvimento)
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UNDP / OPHI (Índice de Pobreza Multidimensional)
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INE Angola (Estudos nacionais de pobreza e IPM)
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Estas fontes são consistentes em afirmar que a pobreza em Angola é elevada e que houve agravamento nos últimos anos, mas não apresentam um aumento de 80% para o período 2017–2025 com a mesma clareza ou metodologia.
Por que a afirmação é ENGANOSA?
A expressão utilizada por André Ventura é:
“A pobreza em Angola aumentou 80%”.
No entanto:
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O número só é válido se for utilizado um tipo específico de medição (pobreza extrema por rendimento, segundo modelação da World Poverty Clock).
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Não é um consenso entre as principais instituições internacionais.
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Não foi explicado o critério utilizado, o que pode induzir o público a acreditar que o número é universal e validado por todas as entidades — o que não é verdade.
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O tema exige contexto técnico, que o político não forneceu no vídeo.
Assim, a alegação tem um fundo de verdade, mas apresentada de forma simplificada e sem referência metodológica, torna-se enganosa.
Conclusão do Verifica.ao
A afirmação de André Ventura é classificada como: ENGANOSA
Há uma base estatística que pode sustentar a percentagem segundo uma fonte específica (World Poverty Clock).
Porém, sem identificação da metodologia, sem referência à fonte e sem explicação das diferentes formas de medir pobreza, a afirmação induz o público em erro, dado que outras fontes credíveis não confirmam esta percentagem.
Fique atento ao Verifica.ao — continuaremos comprometidos em combater a desinformação e em garantir que todos tenham acesso a informação precisa, confiável e verificada.
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