Nos últimos dias, começou a circular nas redes sociais e em diversas plataformas informativas a alegação de que o ataque cibernético que afectou a UNITEL teria tido como principal objectivo a obtenção de um resgate de 300 mil milhões de kwanzas (cerca de 326,5 milhões de dólares), valor equivalente ao arrecadado com a venda de 15% das acções da operadora na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
A informação foi difundida com base numa publicação da revista Economia & Mercado (E&M), que cita uma fonte anónima alegando que os atacantes teriam exigido esse montante depois de conseguirem infiltrar-se na infraestrutura tecnológica da operadora e encriptar dados considerados críticos para o funcionamento da rede.
Perante a ampla divulgação da alegação, vários leitores solicitaram ao Verifica.ao que verificasse a autenticidade da informação.
Após análise dos factos e dos esclarecimentos oficiais disponíveis, a equipa do Verifica.ao concluiu que a alegação é falsa.
O que alegava a publicação?
Segundo a notícia divulgada pela revista, os alegados cibercriminosos teriam infiltrado a infraestrutura tecnológica da UNITEL através de uma plataforma de acesso remoto, encriptado dados críticos da operadora e exigido 300 mil milhões de kwanzas como condição para restaurar o acesso aos sistemas afectados.
O valor referido corresponderia, segundo a publicação, ao montante obtido pelo Estado com a alienação de 15% das acções da UNITEL na BODIVA.
Contudo, essa informação não foi confirmada pela própria operadora.
O que diz a UNITEL?
Em declarações divulgadas pelo jornal O País, a UNITEL afirmou desconhecer totalmente as informações sobre um alegado pedido de resgate de 300 mil milhões de kwanzas, esclarecendo que tomou conhecimento dessas alegações apenas através da sua circulação na internet.
Ou seja, a empresa negou possuir qualquer confirmação de que tenha existido uma exigência de pagamento por parte dos autores do ataque.
Até ao momento, não foi apresentado qualquer documento oficial, relatório técnico ou comunicação das autoridades que confirme a existência desse alegado pedido de resgate.
O que está oficialmente confirmado?
O que está confirmado pela própria operadora é que a UNITEL foi alvo de um ataque cibernético na madrugada de 28 de Julho, onde o incidente afectou serviços de voz, dados móveis, Internet e serviços suportados pela sua rede.
Em comunicado, a operadora informou que foram activados mecanismos de resposta e planos de continuidade do negócio para recuperar gradualmente os serviços e no dia 5 de Agosto, a empresa anunciou a reposição dos principais serviços móveis em todo o país.
A operadora informou igualmente que continua a trabalhar na estabilização da sua infraestrutura tecnológica, admitindo que alguns serviços complementares ainda possam apresentar instabilidade temporária.
A investigação continua
A UNITEL esclareceu ainda que está a colaborar com as autoridades nacionais, especialistas em cibercriminalidade e parceiros técnicos.
Segundo a empresa, novas informações só serão divulgadas quando a investigação estiver suficientemente avançada, desde que a sua divulgação não comprometa a segurança dos sistemas nem prejudique o processo de investigação.
A UNITEL admitiu alguma hipótese sobre a motivação do ataque?
Sim.
Na comunicação ao mercado divulgada a 30 de Julho, a operadora afirmou que uma das hipóteses em análise é a possibilidade de o ataque ter procurado perturbar o processo de admissão das suas acções à negociação na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
Contudo, a própria empresa fez questão de sublinhar que essa é apenas uma hipótese de investigação, não uma conclusão.
Importa distinguir uma hipótese oficialmente investigada de uma alegação apresentada como facto sem qualquer confirmação.
Porque é falsa a alegação do resgate?
Embora a revista tenha citado uma fonte anónima, não existe qualquer confirmação oficial de que tenha sido exigido um resgate de 300 mil milhões de kwanzas, esse valor estivesse relacionado com a operação bolsista da UNITEL e os autores do ataque tenham apresentado qualquer exigência financeira à empresa.
Pelo contrário, a própria UNITEL declarou desconhecer essa informação e afirmou que dela apenas tomou conhecimento através da internet.
Em verificação de factos, alegações extraordinárias exigem provas sólidas. Quando uma informação assenta exclusivamente em fontes anónimas e é contrariada pela entidade directamente envolvida, não pode ser tratada como um facto comprovado.
Os riscos da desinformação durante incidentes cibernéticos
Ataques informáticos de grande dimensão geram frequentemente um elevado volume de especulação.
Durante este tipo de incidentes, é comum surgirem teorias sobre resgates milionários, sabotagens, motivações políticas ou outras explicações que não foram confirmadas pelas autoridades ou pelas entidades envolvidas.
A divulgação dessas informações sem confirmação pode aumentar a desinformação, comprometer investigações em curso, gerar pânico entre clientes e investidores e prejudicar a confiança nas instituições e nos mercados.
Por essa razão, recomenda-se que qualquer informação relacionada com ataques cibernéticos seja confirmada através de comunicações oficiais da entidade visada ou das autoridades competentes.
Veredito do Verifica.ao
FALSO.
Não existem elementos oficiais que comprovem que os autores do ataque cibernético à UNITEL tenham exigido 300 mil milhões de kwanzas como resgate.
A própria operadora afirmou desconhecer essa alegação, esclarecendo que tomou conhecimento da informação apenas através da internet. Até ao momento, a investigação continua em curso e nenhuma autoridade confirmou a existência de qualquer pedido de resgate.
Fique atento ao Verifica.ao
Casos de grande impacto público, como ataques cibernéticos, são frequentemente acompanhados pela circulação de rumores, especulações e informações não confirmadas. Antes de partilhar conteúdos desta natureza, procure sempre confirmar se existem provas e comunicações oficiais que sustentem as alegações.
O Verifica.ao continuará a acompanhar este e outros casos de interesse público, combatendo a desinformação e garantindo que os cidadãos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.
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