A crescente capacidade da Inteligência Artificial (IA) para criar conteúdos falsos “cada vez mais sofisticados” agrava um contexto de “sobreinformação”, dificultando a distinção entre informação e conteúdos manipulados.
A ideia foi defendida pelo coordenador em Portugal do projeto europeu FAMA Tiago Lapa, ressaltando que “combater a desinformação exige mais do que verificar factos. Exige formar cidadãos críticos, conscientes e capazes de compreender os mecanismos invisíveis que moldam a informação que consomem”.
Em declarações à Lusa, no âmbito do arranque da iniciativa europeia FAMA – “Empoderando Cidadãos Informados | Empoderando Democracias Europeias” -, o investigador do CIES-Iscte considerou que a IA e os algoritmos vieram “aumentar a velocidade, a sofisticação e a escala da desinformação”.
“Hoje é possível criar conteúdos falsos muito convincentes em texto, imagem, áudio ou vídeo, e disseminá-los de forma extremamente rápida através das plataformas digitais”, salientou.
Ainda assim, defendeu que “o trabalho de combate e resistência a esta realidade deve ter como foco as pessoas e não meramente a tecnologia”.
Segundo Tiago Lapa, o objetivo do projeto passa por promover programas de formação em literacia mediática e digital que ajudem os cidadãos a compreender “como funcionam os algoritmos, as plataformas, os mecanismos cognitivos e emocionais da desinformação e as novas ferramentas de IA”.
“Acreditamos que quando as pessoas compreendem melhor o ecossistema digital onde circula e é produzida a informação, tornam-se mais críticas, mais autónomas e mais resistentes à manipulação”, acrescentou.
O investigador alertou também para o atual contexto de “sobreinformação” ou “excesso” de conteúdos, que dificulta a distinção entre informação credível e conteúdos manipulados.
“O principal problema já não é apenas a existência de ‘informação falsa’, mas sobretudo a enorme abundância e velocidade de circulação de conteúdos no ambiente digital”, afirmou.
Na sua perspetiva, a IA veio “agravar este cenário”, permitindo produzir conteúdos falsos “cada vez mais sofisticados, personalizados e difíceis de distinguir da realidade”.
Para Tiago Lapa, o maior risco da desinformação não é apenas enganar cidadãos sobre temas específicos, mas provocar “uma erosão generalizada da confiança nos especialistas, nos órgãos de comunicação social, nas instituições centrais ao funcionamento da sociedade, na ciência e até na própria ideia de verdade partilhada”.
“Quando os cidadãos passam a viver num ambiente comunicacional marcado pela dúvida permanente, pela polarização e pela sensação de que ‘já não se pode acreditar em nada’, cria-se um terreno muito vulnerável à manipulação, ao extremismo, à radicalização e ao enfraquecimento do debate democrático”, explicou.
O responsável considerou ainda que as plataformas digitais privilegiam frequentemente conteúdos “mais emocionais, polarizadores ou sensacionalistas”, por gerarem “mais atenção, mais interação e mais tempo de permanência ‘online'”.
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