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Verifica.ao investiga: Xenofobia na África do Sul alimenta onda de desinformação nas redes sociais

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As recentes tensões xenófobas registadas na África do Sul, que nas últimas semanas têm resultado em protestos violentos, distúrbios e manifestações promovidas por grupos anti-imigração como “Operation Dudula” e “March and March”, estão também a provocar uma forte onda de desinformação nas redes sociais e grupos de WhatsApp.

Em meio ao clima de medo e preocupação, várias alegações falsas, imagens descontextualizadas e conteúdos manipulados começaram a circular em diferentes plataformas digitais, sobretudo relacionados com supostas rupturas diplomáticas, expulsões em massa e actos extremos de violência contra estrangeiros.

A equipa do Verifica.ao investigou algumas das principais alegações que mais viralizaram nos últimos dias e concluiu que grande parte das informações partilhadas é falsa, enganosa ou descontextualizada.

1. Nigéria rompe relações com a África do Sul e ordena expulsão de sul-africanos

Uma das alegações mais partilhadas afirmava que o Presidente da Nigéria, Bola Ahmed Tinubu, teria rompido relações diplomáticas com a África do Sul, ordenado a expulsão de cidadãos sul-africanos e suspendido o fornecimento de gás ao país.

Segundo a narrativa viral, a suposta decisão seria uma resposta directa aos recentes episódios de xenofobia contra estrangeiros — incluindo cidadãos nigerianos — em território sul-africano.

O que o Verifica.ao apurou

A informação é falsa.

Não existe qualquer registo, em fontes credíveis ou canais oficiais, de que o Presidente nigeriano tenha tomado tais medidas.

Uma decisão desta magnitude teria repercussão internacional imediata e seria amplamente divulgada por governos, organismos diplomáticos e grandes órgãos de comunicação social internacionais, o que não aconteceu.

O que é verdadeiro

O Governo da Nigéria manifestou preocupação com os episódios de violência e pediu maior protecção para os seus cidadãos residentes na África do Sul.

Contudo, a resposta oficial foi diplomática e não extrema.

As autoridades nigerianas apelaram à investigação dos incidentes, reforço da segurança e manutenção da cooperação bilateral entre os dois países.

Até ao momento não houve expulsão de cidadãos sul-africanos, não houve ruptura diplomática e não houve suspensão oficial de fornecimento de gás.

As relações entre Nigéria e África do Sul mantêm-se activas no quadro da cooperação regional e da União Africana.

2. Presidente da Tanzânia dá 48 horas para saída de sul-africanos

Outra alegação amplamente disseminada afirmava que a Presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, teria dado um prazo de 48 horas para cidadãos sul-africanos abandonarem o país, além de suspender ligações aéreas e comerciais com a África do Sul.

O que o Verifica.ao apurou

A informação é falsa.

Não existe qualquer comunicado oficial, discurso público ou documento governamental que confirme tais medidas.

Segundo analistas consultados pela nossa redacção, uma decisão deste nível teria impacto diplomático internacional imediato e seria amplamente noticiada pela imprensa internacional — o que não aconteceu.

O que dizem fontes oficiais

Autoridades tanzanianas negaram oficialmente rumores sobre tensões graves envolvendo cidadãos do país na África do Sul.

O Alto Comissário da Tanzânia na África do Sul classificou as alegações como “infundadas” e “alarmistas”.

Até ao momento não houve expulsão de sul-africanos, não houve suspensão de voos e não houve ruptura diplomática.

As relações bilaterais entre Tanzânia e África do Sul continuam normais.

3. Fotos virais de imigrantes decapitados na África do Sul

Também circularam em grupos de WhatsApp imagens extremamente violentas alegando mostrar imigrantes africanos decapitados durante ataques xenófobos na África do Sul.

As imagens eram acompanhadas de mensagens alarmistas que incentivavam pessoas a “confirmarem se os seus familiares ainda estavam vivos”.

O que o Verifica.ao apurou

A informação é falsa e descontextualizada.

As imagens não têm qualquer relação com os recentes episódios de xenofobia na África do Sul.

A investigação do Verifica.ao identificou que as fotografias são antigas e estão relacionadas com conflitos étnicos ocorridos na República Democrática do Congo.

A reutilização de imagens violentas fora do seu contexto original é uma prática recorrente em períodos de tensão social, usada para provocar medo, indignação e maior partilha emocional nas redes sociais.

4. Botsuana declara “emergência”, fecha fronteiras e corta energia à África do Sul

Outra alegação viral afirmava que o Botsuana teria declarado “estado de emergência”, encerrado fronteiras e suspendido o fornecimento de energia à África do Sul em resposta à xenofobia.

O que o Verifica.ao apurou

A informação é falsa.

Não existe qualquer anúncio oficial do Governo botswanês, nem registos em fontes credíveis que sustentem essa alegação.

Trata-se de mais um conteúdo sem base factual, disseminado nas redes sociais sem qualquer comprovação.

Como crises sociais alimentam a desinformação

Especialistas em comunicação e comportamento digital consultados pela nossa redacção alertam que momentos de crise social, violência ou tensão política costumam gerar um ambiente propício para a propagação de notícias falsas.

Situações emocionalmente sensíveis aumentam o medo, reduzem a verificação crítica, incentivam partilhas impulsivas e favorecem conteúdos sensacionalistas.

Além disso, imagens antigas, vídeos fora de contexto e informações manipuladas tendem a ganhar força porque despertam reacções emocionais imediatas.

Em muitos casos, os conteúdos são partilhados sem qualquer verificação prévia, ampliando o pânico e a desinformação.

O fenómeno é ainda mais grave quando envolve relações diplomáticas, conflitos sociais ou alegações de violência extrema, pois pode gerar tensão entre comunidades, espalhar medo e comprometer a confiança pública na informação.

Conclusão

As tensões xenófobas na África do Sul são reais e preocupantes. Contudo, grande parte das alegações virais que circulam nas redes sociais sobre rupturas diplomáticas, expulsões em massa e imagens extremas de violência não corresponde aos factos verificados.

O Verifica.ao apela aos cidadãos para que evitem partilhar conteúdos sem confirmação e consultem sempre fontes credíveis antes de divulgar informações sensíveis.

Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.

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