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Investigação do Verifica.ao revela proliferação de teorias de desinformação após ataque cibernético à Unitel

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O ataque cibernético que deixou a Unitel sem serviços de voz, dados móveis e Internet durante mais de 24 horas, esta terça-feira, 28 de Julho, rapidamente deu origem a uma avalanche de desinformação nas redes sociais, onde começaram a circular teorias da conspiração sem qualquer evidência que sustentasse as alegações.

No último dia, vários internautas solicitaram ao Verifica.ao que verificasse a autenticidade de diversas publicações que procuravam atribuir motivações políticas, económicas e até estratégicas ao incidente informático que afectou a maior operadora de telecomunicações de Angola.

Após investigação, a equipa do Verifica.ao concluiu que as alegações divulgadas não apresentam qualquer prova que as sustente, tratando-se de especulações e teorias da conspiração construídas a partir de um acontecimento real.

O que aconteceu?

Na madrugada de terça-feira, cerca das 02h20, a Unitel informou ter sido alvo de um ataque cibernético que afectou a sua infraestrutura tecnológica, provocando interrupções generalizadas nos serviços de telecomunicações em todo o território nacional.

Segundo a operadora, foram imediatamente activados os mecanismos de resposta ao incidente, envolvendo equipas técnicas e especialistas em cibersegurança para restaurar os serviços.

O impacto foi sentido por milhões de clientes, que enfrentaram dificuldades para efectuar chamadas, utilizar dados móveis, aceder à Internet e recorrer a aplicações que dependem da conectividade.

O incidente ocorreu precisamente na véspera da estreia da Unitel na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), circunstância que acabou por alimentar inúmeras interpretações sem fundamento.

As teorias que inundaram as redes sociais

Poucas horas após o anúncio do ataque começaram a surgir dezenas de publicações que apresentavam explicações alternativas para o sucedido.

Entre as principais alegações partilhadas encontram-se a ideia de que o ataque teria sido provocado internamente para desvalorizar a Unitel antes da sua privatização, alegações de que o objectivo seria favorecer determinados investidores ou grupos económicos e comparações com a antiga situação da Movicel, sugerindo que estaria em curso um plano semelhante.

Os investigadores do Verifica.ao notaram ainda publicações afirmando que o corte da rede teria servido para desviar a atenção do funeral do antigo Presidente da República e outras mensagens segundo as quais o Governo teria desligado deliberadamente a rede para impedir a comunicação entre militantes do MPLA durante alegadas manifestações internas.

Contudo, nenhuma destas alegações foi acompanhada por documentos, investigações independentes, provas técnicas ou confirmações oficiais.

Em todos os casos analisados pelo Verifica.ao, as publicações baseavam-se apenas em opiniões pessoais, interpretações, suposições ou alegadas “fontes” nunca identificadas.

Existe alguma prova destas alegações?

Não.

Durante a investigação realizada pelo Verifica.ao, não foi encontrada qualquer evidência verificável que demonstre que o incidente tenha sido provocado intencionalmente para favorecer interesses económicos, esconder acontecimentos políticos ou impedir comunicações por motivos partidários.

Até ao momento nenhuma autoridade apresentou elementos que sustentem essas teorias. não existe qualquer relatório técnico público que confirme sabotagem interna e nenhuma investigação oficial apontou para as motivações divulgadas nas redes sociais.

Isso não significa que todas as hipóteses possam ser excluídas no futuro. Significa apenas que, neste momento, não existem factos comprovados que permitam transformar especulações em informação.

Unitel comunicou ciberataque às autoridades para apurar origem

A Unitel afirmou hoje que o ataque informático de que foi alvo foi comunicado às autoridades competentes e que está a trabalhar com parceiros internacionais para apurar a sua origem, considerando a cibercriminalidade um dos principais desafios das empresas.

A garantia foi dada pelo presidente do conselho de administração da operadora, Aguinaldo Jaime, na cerimónia de admissão à negociação na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), que marcou a estreia da empresa no mercado de capitais.

O responsável abordou o incidente de cibersegurança que afetou parte da infraestrutura tecnológica e que permanece por resolver passadas quase 36 horas, adiantando que foram mobilizadas equipas internas e parceiros internacionais que trabalham de forma contínua para conter o incidente e investigar a sua origem.

Salientou que a cibercriminalidade é um dos maiores desafios das organizações, defendendo que as empresas líderes distinguem-se não por nunca serem alvo de ataques, mas pela forma como respondem, sublinhando que a Unitel tem vindo a investir em tecnologias de segurança.

A operadora, prosseguiu, está a colaborar com as autoridades competentes para apoiar a responsabilização dos autores do ataque.

Aguinaldo Jaime reafirmou o compromisso com o combate ao cibercrime e a proteção de parceiros e acionistas, a quem transmitiu uma mensagem de confiança, garantindo que a Unitel está preparada para responder aos desafios do digital.

O perigo das teorias da conspiração

Em momentos de grande impacto mediático, como um apagão nacional das telecomunicações, é frequente surgirem teorias que procuram explicar rapidamente aquilo que ainda está a ser investigado.

O problema é que essas narrativas costumam apresentar conclusões sem qualquer base factual.

As teorias da conspiração tendem a preencher o vazio de informação com especulações, explorar a desconfiança nas instituições, apresentar coincidências como se fossem provas, transformar opiniões em supostos factos, aumentar a polarização social e política e dificultar o acesso dos cidadãos à informação verdadeira.

Em muitos casos, estas narrativas espalham-se muito mais depressa do que os esclarecimentos oficiais, tornando mais difícil corrigir a desinformação.

Coincidência não significa causalidade

Um dos aspectos identificados pelo Verifica.ao foi a utilização de coincidências temporais para construir narrativas falsas.

O facto de o ataque ocorrer próximo de outros acontecimentos relevantes, como eventos políticos ou institucionais, não constitui, por si só, prova de relação entre eles.

Na verificação de factos, estabelecer uma ligação entre dois acontecimentos exige evidências concretas, documentos, investigações ou fontes credíveis — e não apenas a proximidade das datas.

Ciberataques são uma realidade mundial

Ataques informáticos contra operadoras de telecomunicações, bancos, hospitais, aeroportos e instituições públicas têm ocorrido em diversos países.

Nem todos os incidentes significam necessariamente sabotagem política, nem todos estão ligados a interesses económicos específicos.

As motivações podem incluir criminalidade informática, pedidos de resgate (ransomware), espionagem digital ou outras formas de cibercrime.

Por essa razão, especialistas em cibersegurança recomendam aguardar pelas conclusões das investigações antes de retirar conclusões sobre a autoria ou os objectivos de um ataque.

A importância do jornalismo baseado em evidências

O caso da Unitel demonstra como acontecimentos reais podem ser rapidamente aproveitados para criar narrativas falsas que circulam milhares de vezes nas redes sociais.

Num contexto de incerteza, é essencial que cidadãos, plataformas informativas e criadores de conteúdos privilegiem informações sustentadas por factos verificáveis, evitando publicar acusações ou conclusões sem provas.

A rapidez na divulgação de conteúdos nunca deve sobrepor-se ao rigor da informação.

Veredicto

Classificação: DESINFORMAÇÃO

O ataque cibernético à Unitel é um facto confirmado pela operadora. Contudo, as diversas teorias da conspiração que surgiram posteriormente nas redes sociais — associando o incidente a alegados planos de privatização, interesses políticos, funerais ou manifestações partidárias — não apresentam qualquer evidência verificável que as sustente.

Até ao momento, essas narrativas permanecem no campo da especulação e não podem ser tratadas como factos.

O Verifica.ao recomenda aos cidadãos que evitem partilhar publicações baseadas em rumores ou teorias da conspiração e aguardem sempre por informações provenientes de fontes credíveis e investigações devidamente documentadas.

Continue a acompanhar o Verifica.ao. A nossa missão é combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas, contribuindo para um debate público assente em factos e não em especulações.

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