Circula nas redes sociais, em estados e grupos do WhatsApp, um cartaz que anuncia uma suposta campanha solidária destinada a pais e encarregados de educação de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). A publicação promete oferecer gratuitamente 50 pulseiras de identificação, alegadamente equipadas com um código QR que permitiria aceder a informações para ajudar a localizar uma criança caso se perca dos familiares. No entanto, não foi possível confirmar a autenticidade da iniciativa.

A equipa do Verifica.ao analisou a imagem e procurou identificar os responsáveis pela campanha. O cartaz apresenta o número de telemóvel 923 385 656 como único contacto para os interessados, mas não identifica qualquer associação, empresa, instituição pública ou organização responsável pela alegada distribuição das pulseiras.
Para esclarecer a situação, o Verifica.ao contactou o número indicado, através de chamadas telefónicas e de uma mensagem enviada pelo WhatsApp. Contudo, não foi possível estabelecer contacto com os responsáveis. As chamadas não foram atendidas e, após três dias, a mensagem continuava sem resposta.
A nossa investigação permitiu, entretanto, confirmar que as pulseiras de identificação destinadas a pessoas com autismo existem e são utilizadas em diferentes países. Estas soluções podem incluir códigos QR associados a informações relevantes, como contactos de emergência e dados que facilitem a assistência à pessoa identificada.
No Brasil, por exemplo, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) Benedito Bentes, Santa Lúcia e Trapiche da Barra, em Maceió, adoptaram, em 2024, pulseiras específicas para identificar pacientes com autismo, com o objectivo de melhorar o acolhimento e o atendimento. A iniciativa foi divulgada pelo Instituto Saúde e Cidadania.
Nos Estados Unidos, o Children’s Hospital of Philadelphia também recomenda que as famílias considerem dispositivos de identificação e segurança para crianças com necessidades especiais, incluindo pulseiras e etiquetas que podem disponibilizar informações de emergência.
A AIDE Canada, organização que disponibiliza recursos de apoio à comunidade do autismo e da deficiência intelectual, analisou igualmente a utilização de tecnologias de localização e sistemas de identificação através de códigos QR. A organização reconhece o potencial destas ferramentas, mas chama a atenção para os cuidados necessários em matéria de privacidade e segurança.
Importa esclarecer, contudo, que uma pulseira com código QR não é necessariamente um dispositivo de localização GPS. O código permite que alguém, ao utilizar um telemóvel para o ler, aceda às informações nele disponibilizadas. Por si só, não transmite a localização da criança em tempo real.
Em Angola, a nossa investigação encontrou registos de iniciativas relacionadas com este tipo de dispositivos. Em 5 de Dezembro de 2016, a agência Lusa noticiou que a Associação Angolana de Apoio à Pessoa Autista e Portadora de Transtornos Globais de Desenvolvimento (APEGADA) pretendia desenvolver um projecto de pulseiras de identificação e, numa fase posterior, pulseiras electrónicas associadas a um sistema GPS.
Na altura, o presidente da associação, António Teixeira, explicou que o projecto ainda não dispunha de financiamento e que tinha sido apresentado à Assembleia Nacional. Este registo demonstra que a ideia já tinha sido discutida no país, mas não comprova que o projecto tenha sido efectivamente implementado.
Mais recentemente, em 25 de Junho de 2025, o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos anunciou uma acção especial de registo de nascimento e atribuição de Bilhete de Identidade a crianças com Transtorno do Espectro do Autismo. A iniciativa envolveu equipas móveis destacadas para a APEGADA e para a Clínica Capacitar para Cuidar – Kuzolamona. Contudo, a informação institucional consultada não faz referência à distribuição das pulseiras anunciadas no cartaz viral.
O Verifica.ao identificou também a existência de uma empresa angolana, a Airgo Angola, que apresenta no seu catálogo um produto denominado AirgoKandengue Autismo, destinado à identificação e segurança de crianças com TEA. O produto é anunciado pelo preço de 40 mil kwanzas. Porém, não foi encontrada qualquer ligação documentada entre a empresa e a campanha que promete oferecer gratuitamente 50 pulseiras.
Outro aspecto que merece atenção é a ausência de informações sobre o tratamento dos dados pessoais. O cartaz não esclarece quem terá acesso aos dados das crianças, onde serão armazenados, que mecanismos de segurança serão utilizados ou durante quanto tempo as informações ficarão disponíveis.
Esta questão é particularmente relevante porque a iniciativa envolve menores de idade e pode implicar a recolha de dados pessoais e informações sensíveis relacionadas com a saúde, os contactos familiares e a identificação das crianças. Por esse motivo, os pais devem evitar fornecer fotografias, diagnósticos, documentos de identificação ou outros dados dos filhos a responsáveis cuja identidade não tenha sido devidamente confirmada.
Perante os elementos recolhidos, o Verifica.ao classifica como NÃO VERIFICADA a campanha que anuncia a oferta gratuita de 50 pulseiras de identificação para crianças com autismo em Angola. A investigação confirmou que este tipo de tecnologia existe e que já houve iniciativas relacionadas com a sua utilização no país. Contudo, não foi possível identificar os promotores da campanha divulgada, confirmar a sua ligação a uma instituição ou empresa, nem obter uma resposta através do contacto apresentado.
Assim, não existem provas suficientes para afirmar que a publicação constitui uma burla, mas também não há fundamento para considerar legítima a oferta anunciada. A recomendação é que as famílias não partilhem dados pessoais dos seus filhos enquanto a identidade dos responsáveis e as condições da alegada campanha não forem devidamente esclarecidas.
Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que tenha acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas. Antes de aderir a campanhas solidárias divulgadas nas redes sociais, procure confirmar quem as promove e como serão utilizados os seus dados pessoais.














