Um vídeo do deputado e político angolano Adriano Sapiñala na última edição do Podcast “Conversas com o Deputado” voltou a gerar ampla circulação nas redes sociais, depois de o político afirmar que “o primeiro sinal de Internet em Angola foi lançado a partir do Bailundo, exactamente sob a administração do Dr. Savimbi, em 1996”.
A declaração despertou dúvidas entre internautas, que solicitaram ao Verifica.ao a verificação da informação.
A nossa equipa analisou registos históricos sobre a introdução da Internet em Angola e encontrou evidências que contradizem a afirmação.
A alegação é falsa, embora possa estar relacionada com um facto histórico verdadeiro: a UNITA já tinha presença na Internet em 1996, quando mantinha o controlo de determinadas zonas do país.
A Internet chegou a Angola antes de 1996
Os registos históricos sobre o desenvolvimento da Internet em Angola mostram que a conectividade internacional começou antes de 1996 e não teve origem no Bailundo.
Um dos elementos mais importantes é um levantamento histórico sobre a Internet angolana elaborado por Silvio Cabral Almada e Haymée Pérez Cogle, identificados como pioneiros da Internet em Angola.
A cronologia apresentada aponta para os seguintes marcos:
- 1989/1990: desenvolvimento de iniciativas que permitiram o acesso de Angola a redes electrónicas internacionais;
- 1990: realização de um primeiro acesso remoto de correio electrónico entre Luanda e um servidor no Canadá;
- Fevereiro de 1994: instalação do primeiro servidor de correio electrónico da ANGONET;
- Abril de 1994: desenvolvimento do projecto PNUD RIDS-Ang;
- Agosto de 1996: a UNINET, ligada à Universidade Agostinho Neto, já disponibilizava acesso completo à Internet;
- 29 de Outubro de 1996: a EBONet estabeleceu uma ligação internacional através da Angola Telecom e passou a disponibilizar acesso completo à Internet, tornando-se o primeiro ISP comercial angolano segundo essa cronologia.
A Development Workshop, organização que participou nos primeiros projectos de conectividade em Angola, também documenta o desenvolvimento da AngoNet em Luanda e a disponibilização de acesso a redes electrónicas internacionais antes de 1996.
Isto significa que a Internet já estava presente em Angola antes de a UNITA estabelecer a sua presença online em 1996.
O que aconteceu no território controlado pela UNITA?
É aqui que a declaração pode ter origem.
Em 10 de Maio de 1996, o jornal espanhol El País publicou uma reportagem realizada em Andulo, então uma das principais zonas sob controlo de Jonas Savimbi.
A reportagem registou que, através de uma pequena empresa francesa, a UNITA disponibilizava a sua página electrónica na Internet a partir de Andulo.
Ou seja, existe uma fonte contemporânea que comprova a presença da UNITA na Internet em território sob seu controlo.
Mas é importante distinguir os dois factos:
A UNITA ter colocado uma página na Internet a partir de uma zona sob o seu controlo não significa que o primeiro acesso à Internet em Angola tenha partido daquela região.
São acontecimentos completamente diferentes.
E onde entra o Bailundo?
O Bailundo tinha, de facto, uma importância estratégica para a UNITA naquela época.
Uma reportagem do Mail & Guardian, publicada em Setembro de 1996, confirma que Jonas Savimbi havia transformado o Bailundo na sede da UNITA em 1994. A mesma reportagem refere que a UNITA já possuía um endereço na Internet.
A própria documentação histórica da UNITA confirma que o seu III Congresso Extraordinário ocorreu no Bailundo, entre 20 e 27 de Agosto de 1996.
Além disso, documentos das Nações Unidas sobre o conflito angolano descrevem Andulo e Bailundo como centros de operações das estruturas logísticas e de comando da UNITA durante aquele período.
Portanto, há uma ligação histórica real entre o Bailundo, a estrutura da UNITA e a presença da organização na Internet nos anos 1990.
O que não encontramos é evidência de que o primeiro sinal de Internet de Angola tenha sido emitido a partir do Bailundo.
A diferença entre “Internet em Angola” e “Internet da UNITA”
Esta distinção é fundamental para compreender a alegação.
Há evidências de que:
1. Angola já tinha acesso a redes electrónicas internacionais antes de 1996.
2. Em 1996, instituições angolanas já tinham acesso completo à Internet.
3. A UNITA possuía uma presença online em 1996.
4. Essa presença online estava associada a zonas sob controlo da organização, nomeadamente Andulo.
Mas não há evidências que permitam concluir que:
“O primeiro sinal de Internet em Angola foi lançado a partir do Bailundo sob administração de Savimbi.”
A afirmação mistura, portanto, a história da chegada da Internet a Angola com a história da presença da UNITA na Internet.
O que podemos afirmar com segurança?
Com base nos registos históricos consultados, podemos afirmar que a Internet em Angola começou a desenvolver-se antes de 1996 e que Luanda teve um papel central nos primeiros acessos e infra-estruturas de conectividade.
Também é historicamente documentado que a UNITA já possuía presença na Internet em 1996, quando Savimbi e a organização mantinham estruturas em zonas como Andulo e Bailundo.
Contudo, não encontramos evidências credíveis que sustentem que o primeiro sinal de Internet em Angola tenha sido lançado a partir do Bailundo.
Veredicto do Verifica.ao: FALSO
É falsa a afirmação de que “o primeiro sinal de Internet em Angola foi lançado a partir do Bailundo, exactamente sob a administração do Dr. Savimbi, em 1996”.
A documentação histórica mostra que Angola já tinha acesso a redes electrónicas internacionais antes de 1996 e que, em 1996, instituições angolanas já dispunham de acesso completo à Internet.
É verdade, por outro lado, que a UNITA tinha presença na Internet em 1996, quando controlava territórios como Andulo e Bailundo. Uma reportagem do El País, publicada naquele ano, registou especificamente a existência de uma página electrónica da UNITA a partir de Andulo.
Assim, a presença da UNITA na Internet é um facto histórico; atribuir-lhe, porém, a origem do primeiro sinal de Internet em Angola não é sustentado pelas evidências disponíveis.
Fique atento ao Verifica.ao
A história de Angola, sobretudo quando envolve acontecimentos políticos e militares, pode ser facilmente distorcida quando diferentes acontecimentos são apresentados como se fossem um só.
O Verifica.ao continuará a investigar alegações de interesse público, recorrendo a documentos históricos, fontes primárias e instituições credíveis para separar factos comprovados de interpretações ou narrativas sem sustentação documental.
Fique atento ao Verifica.ao — estamos aqui para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informação precisa, confiável e verificada.
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