Uma imagem que circula nas redes sociais e em grupos do WhatsApp é apresentada como sendo de um centro de diálise na Nigéria, onde estariam internados jovens com insuficiência renal supostamente provocada pelo consumo de bebidas energéticas.

A publicação afirma ainda que não haveria idosos entre os pacientes e que todos teriam entre 15 e 30 anos. O texto associa directamente a alegada situação ao consumo de marcas como Fearless Energy, Bullet Energy, Power Horse, Supa Komando, Predator Energy, Monster Energy, Red Bull, Zagg Energy Malt, Tiger, Cintron, Maca Plus, Reaktor e Carabao, entre outras.
A equipa do Verifica.ao analisou a alegação e verificou que a imagem não corresponde a uma fotografia real de um centro de diálise na Nigéria.
A informação é falsa.
A imagem foi gerada por inteligência artificial
A investigação realizada por plataformas internacionais de verificação de factos encontrou vários indícios de que a fotografia é uma criação de inteligência artificial.
A plataforma beninense Badona identificou, entre outras anomalias, pacientes com número incorrecto de dedos das mãos e dos pés, além de deformações nos rostos de pacientes e profissionais de saúde. A análise também encontrou outros elementos visuais incompatíveis com uma fotografia real.
A mesma fotografia foi analisada pelo Factoscope, que chegou à conclusão de que a imagem foi gerada por inteligência artificial e não representa um centro de diálise real na Nigéria.
Uma verificação publicada pela Africa Check, em Junho de 2026, também concluiu que a imagem é provavelmente gerada por IA. A organização identificou deformações nas mãos, pés e rostos dos pacientes, bem como ligações incoerentes entre alguns tubos e as máquinas de hemodiálise.
O Togocheck, por sua vez, não encontrou qualquer elemento que permitisse confirmar que a fotografia foi tirada na Nigéria, nem que os indivíduos retratados tivessem entre 15 e 28 anos ou sofressem de insuficiência renal provocada pelo consumo de bebidas energéticas. A plataforma também encontrou características compatíveis com uma imagem produzida por IA.
A fotografia circula com diferentes contextos
As verificações mostram ainda que a imagem não surgiu originalmente associada à Nigéria.
Segundo a Africa Check, uma das versões mais antigas encontradas na internet remonta a 4 de Abril de 2026, numa publicação do Instagram em que a fotografia era apresentada simplesmente como uma imagem de um centro de diálise, sem referência à Nigéria.
O Togocheck também encontrou a mesma imagem utilizada em diferentes contextos e países, incluindo uma publicação de 2025 que a utilizava para ilustrar uma informação sobre pessoas com doenças renais.
Isto reforça que não há base para atribuir a fotografia a uma unidade hospitalar específica na Nigéria.
E as bebidas energéticas podem afectar os rins?
É importante separar duas questões.
O facto de a imagem ser falsa não significa que o consumo excessivo de bebidas energéticas seja necessariamente inofensivo. Existem estudos científicos que investigam possíveis efeitos destas bebidas sobre a função renal.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em Abril de 2026 analisou 19 estudos pré-clínicos, maioritariamente realizados em animais. Os investigadores encontraram associação entre a exposição a bebidas energéticas e alterações de marcadores de função renal, incluindo creatinina e ureia, além de alterações morfológicas nos rins em alguns estudos.
Contudo, há uma limitação fundamental: a revisão analisou estudos pré-clínicos, principalmente em animais. Os próprios autores alertam para a dificuldade de extrapolar directamente estes resultados para seres humanos e destacam que os efeitos renais das bebidas energéticas continuam a ser pouco compreendidos.
Assim, não é cientificamente correcto utilizar essa investigação para afirmar que as pessoas retratadas na imagem desenvolveram insuficiência renal por beberem determinadas marcas.
O Togocheck chegou à mesma conclusão: existem estudos sobre possíveis efeitos das bebidas energéticas na função renal, mas não há evidência científica que demonstre que o consumo normal dessas bebidas, por si só, provoque sistematicamente insuficiência renal que exija diálise.
A doença renal na Nigéria tem várias causas
A doença renal crónica é, de facto, um problema de saúde na Nigéria. No entanto, os dados científicos disponíveis apontam para um conjunto muito mais amplo de factores de risco.
Uma revisão sistemática de estudos realizados na população nigeriana identificou como factores associados à doença renal crónica a idade avançada, obesidade, diabetes, hipertensão arterial, histórico familiar de hipertensão e doença renal, entre outros.
Num estudo realizado numa comunidade do sudeste da Nigéria, por exemplo, foram identificados como factores associados à doença renal crónica a idade avançada, hipertensão, histórico familiar de doença renal e obesidade.
Outro estudo realizado num hospital terciário nigeriano encontrou como causas comuns de doença renal crónica a hipertensão arterial (35%), diabetes (26,5%) e glomerulonefrite crónica (12,1%). Os participantes tinham idades entre 17 e 95 anos, com idade média de aproximadamente 49 anos.
Portanto, a afirmação de que os pacientes da imagem são todos jovens e que a sua doença renal foi causada por bebidas energéticas não é sustentada pelas evidências disponíveis.
Veredicto
FALSO.
A imagem que circula como sendo de um centro de diálise na Nigéria, supostamente cheio de jovens que desenvolveram insuficiência renal devido ao consumo de bebidas energéticas, foi gerada por inteligência artificial e não há evidências de que represente uma unidade de diálise real na Nigéria.
Embora existam investigações sobre os possíveis efeitos do consumo excessivo de bebidas energéticas na saúde renal, estas não permitem concluir que as pessoas retratadas na imagem tenham desenvolvido insuficiência renal por causa dessas bebidas.
Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que todos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas. Antes de partilhar uma imagem ou informação alarmante, procure confirmar a sua origem e verificar se existem evidências que sustentem a alegação.
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