Publicações que anunciam supostas vendas, candidaturas e apartamentos disponíveis nas centralidades do país continuam a circular nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. Uma investigação do Verifica.ao identificou um padrão recorrente: os conteúdos recorrem ao nome e à imagem de instituições públicas, apresentam preços e condições aparentemente atractivos e, em alguns casos, encaminham os interessados para formulários, contactos ou pagamentos fora dos canais oficiais.
O fenómeno não é novo, mas tem ganhado novas formas no ambiente digital. E encontra terreno fértil numa realidade em que o acesso à habitação própria continua a ser um dos principais desafios para muitas famílias angolanas.
Em Março de 2026, o Ministério das Obras Públicas, Urbanismo e Habitação (MOPUH) voltou a alertar publicamente para a circulação de falsas informações sobre a comercialização de apartamentos nas centralidades. Segundo o Ministério, havia um elevado número de reclamações relacionadas com burlas e muitos cidadãos estavam a cair nas chamadas “armadilhas” de falsas vendas.
O padrão repete-se
A investigação do Verifica.ao identificou diferentes publicações que anunciam supostas candidaturas para aquisição de apartamentos em centralidades como Kilamba, KK5000/KK5800, Zango, Sequele, entre outras.
Em vários casos, as mensagens apresentam-se como comunicados ou anúncios oficiais e utilizam referências ao Fundo de Fomento Habitacional (FFH), ao Ministério das Obras Públicas, Urbanismo e Habitação ou ao Governo.
O problema é que a aparência institucional não significa que o conteúdo seja verdadeiro.
Em Junho de 2026, o próprio Verifica.ao verificou uma dessas alegações, segundo a qual o Governo teria aberto candidaturas para aquisição de apartamentos nas centralidades. A publicação foi classificada como falsa, depois de o FFH esclarecer que não havia aberto candidaturas para aquisição de apartamentos nas centralidades nos termos divulgados nas redes sociais.
O alerta oficial é particularmente importante: as autoridades indicaram que os falsos anúncios podem levar os cidadãos a preencher formulários, fornecer dados pessoais e efectuar pagamentos indevidos a entidades que não representam o Estado.
O próprio Ministério já alertou para o problema
O alerta das autoridades não surgiu apenas uma vez.
Em Julho de 2024, centenas de cidadãos deslocaram-se à Centralidade KK5000, em Luanda, depois de uma falsa informação indicar que estavam abertas inscrições para aquisição de apartamentos. Muitos dos cidadãos, segundo o Novo Jornal, eram funcionários públicos e chegaram a faltar ao serviço para procurar o local onde supostamente decorreriam as inscrições.
Na ocasião, o Ministério esclareceu que nenhum dos seus órgãos, incluindo o Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Fundo de Fomento Habitacional, tinha iniciado candidaturas para aquisição das habitações construídas com fundos públicos naquele projecto.
A mesma orientação foi dada pelo Ministério relativamente ao projecto KK5800: as informações que circulavam nas redes sociais sobre uma suposta abertura de candidaturas foram classificadas como falsas.
Mais recentemente, em Março de 2026, o MOPUH voltou a afirmar que não estava em curso qualquer processo de comercialização de apartamentos nas centralidades através das entidades públicas do sector. O Ministério também informou que Luanda concentrava o maior número de páginas e sites falsos relacionados com a comercialização de habitações, seguida por Benguela e Huambo.
Por que razão estes anúncios conseguem enganar tantas pessoas?
Para o Verifica.ao, uma das principais razões está na combinação entre a elevada procura por habitação e a utilização de elementos que transmitem uma falsa sensação de legitimidade.
O sonho da casa própria faz com que uma publicação que anuncia “novas casas”, “última fase de candidaturas”, “apartamentos disponíveis” ou “venda directa pelo FFH” desperte imediatamente o interesse de milhares de pessoas.
O problema agrava-se quando a publicação apresenta logótipos de instituições públicas, fotografias reais das centralidades, supostos despachos ou comunicados, formulários de inscrição, números de telefone ou WhatsApp, preços aparentemente abaixo do mercado, promessas de acesso facilitado, prazos limitados para inscrição e pedidos de pagamento para “reserva”, “inscrição” ou “processamento”.
A utilização de imagens verdadeiras torna o golpe ainda mais convincente. Uma fotografia real de um apartamento numa centralidade não prova que o anúncio associado à fotografia seja verdadeiro.
Há vítimas e prejuízos financeiros
Os alertas oficiais ganham ainda maior relevância porque existem antecedentes concretos de burlas relacionadas com habitações públicas.
Em Agosto de 2023, o Departamento de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP) desmantelou em Luanda uma rede de quatro indivíduos que burlava cidadãos interessados em adquirir residências em projectos habitacionais construídos com fundos públicos. Segundo os dados divulgados na altura, o grupo teria arrecadado mais de 50 milhões de kwanzas.
Uma das vítimas terá pago 36 milhões de kwanzas para adquirir seis residências. Os suspeitos, segundo as autoridades, chegavam a arrombar portas, trocar fechaduras e falsificar documentos para sustentar a falsa ideia de que os imóveis lhes pertenciam.
O problema também aparece associado às redes sociais. Em 2024, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) alertou para o aumento das burlas na Internet, incluindo esquemas relacionados com a aquisição de residências.
Em Maio de 2026, um caso envolvendo falsas promessas de atribuição de residências na Centralidade Vida Pacífica voltou a expor os riscos deste tipo de esquema. Mais de uma centena de cidadãos denunciaram ter sido lesados, segundo informações divulgadas pela imprensa, num processo que passou a ser investigado pelas autoridades.
O problema não termina quando o cidadão encontra uma “casa”
Outro fenómeno que merece atenção é o chamado trespasse ou venda informal de apartamentos que já foram atribuídos.
Em Maio de 2026, o jornal Expansão noticiou que o aumento da procura e dos preços dos imóveis nas centralidades tem impulsionado negócios informais e casos de burla. Segundo a publicação, há situações em que o mesmo apartamento chega a ser negociado com mais de um comprador.
Isto é diferente de uma falsa campanha de venda promovida nas redes sociais, mas revela outro risco: nem toda a pessoa que apresenta documentos de uma casa tem necessariamente legitimidade para vendê-la.
Por isso, um cidadão que encontre um anúncio de um apartamento numa centralidade não deve concluir que está perante uma oportunidade legítima apenas porque o anunciante apresenta contrato, recibos, fotografias ou outros documentos.
“Mas as casas existem”
É precisamente aqui que muitos esquemas se tornam mais convincentes.
As centralidades existem. Os apartamentos existem. O FFH existe. O Governo já comercializou habitações públicas. E existem efectivamente cidadãos que adquiriram casas através de programas públicos.
Mas estes factos verdadeiros podem ser utilizados para construir uma narrativa falsa.
Em 2023, por exemplo, o então presidente do FFH informou que as 85 mil habitações distribuídas por 24 centralidades estavam vendidas.
Em Março de 2026, o MOPUH voltou a esclarecer que a ideia de existirem apartamentos desocupados nas centralidades à espera de serem vendidos directamente pelo Estado não correspondia à realidade, afirmando que as habitações entregues pelo Governo tinham proprietários.
Isso não significa que nenhuma habitação pública possa ser comercializada no futuro. Significa que qualquer novo processo deve ser confirmado através de uma comunicação oficial das entidades responsáveis.
Como reconhecer uma possível burla?
A investigação do Verifica.ao recomenda especial atenção quando uma publicação:
1. Exige pagamento antecipado
Desconfie de pedidos para pagar uma “taxa de inscrição”, “reserva”, “garantia”, “emissão de contrato” ou qualquer outro valor através de contas pessoais, carteiras digitais ou contactos não oficiais.
2. Utiliza apenas WhatsApp ou Facebook para fazer a inscrição
Uma publicação numa rede social não substitui um anúncio oficial do Estado.
3. Promete acesso garantido
Expressões como “casa garantida”, “últimas vagas”, “sem concurso”, “sem burocracia” ou “pagamento imediato” devem ser encaradas como sinais de alerta.
4. Pede dados pessoais
Não forneça desnecessariamente cópias do Bilhete de Identidade, dados bancários, códigos recebidos por SMS, fotografias ou outras informações sensíveis através de formulários desconhecidos.
5. Apresenta documentos que não podem ser confirmados
Um documento com logótipo oficial não é, por si só, prova de autenticidade. Os documentos devem ser confirmados junto da instituição que supostamente os emitiu.
6. Pressiona para uma decisão rápida
A urgência artificial é uma das ferramentas utilizadas para impedir que a potencial vítima tenha tempo de verificar a informação.
Como confirmar se uma venda é verdadeira?
A regra mais segura é simples: não confie no anúncio; confirme a informação na fonte oficial.
O FFH mantém um portal institucional onde publica informações relacionadas com a sua actividade. Portal do Fundo de Fomento Habitacional
Da mesma forma, informações relacionadas com programas habitacionais devem ser confirmadas junto do Ministério responsável pelo sector e dos órgãos públicos competentes.
O próprio Ministério já afirmou que, para assuntos de elevado interesse público como a habitação, as comunicações devem ser feitas através dos canais oficiais e dos seus representantes, e não através de anúncios informais nas redes sociais.
O sonho da casa própria não pode ser transformado numa armadilha
Angola continua a enfrentar uma forte pressão no sector habitacional. Em 2024, o Governo estimava o défice habitacional em cerca de 2,2 milhões de unidades, enquanto o Executivo afirmava ter construído cerca de 350 mil habitações desde o início dos seus programas habitacionais.
Esta realidade ajuda a explicar por que razão os falsos anúncios de casas têm um enorme potencial de disseminação.
Para uma família que procura há anos uma habitação, uma mensagem no WhatsApp anunciando que “abriram as inscrições” pode representar uma esperança concreta. É precisamente essa esperança que os burladores procuram explorar.
A desinformação, neste caso, não é apenas um problema de informação falsa. Pode transformar-se directamente em prejuízo financeiro, roubo de dados pessoais, falsificação documental e até em processos criminais.
As publicações que anunciam novas vendas ou candidaturas para aquisição de casas nas centralidades, atribuindo o processo ao FFH, ao INH ou ao Ministério das Obras Públicas, Urbanismo e Habitação, não devem ser consideradas verdadeiras sem confirmação nos canais oficiais.
Os sucessivos desmentidos das autoridades demonstram que este é um fenómeno recorrente e que já provocou deslocações em massa de cidadãos, denúncias de burlas e prejuízos financeiros.
O Verifica.ao continuará a acompanhar estas publicações e a investigar os conteúdos que possam induzir os cidadãos em erro.
Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.
Antes de pagar por uma casa anunciada nas redes sociais, pare, confirme e só depois tome uma decisão. O sonho da casa própria não deve transformar-se no pesadelo de uma burla.
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