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Francisco Semedo: “Os peixes conseguem passar pelo processo de mutação genética, de fêmea para macho”

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Uma declaração feita pelo especialista Francisco Semedo, no programa “A Voz do Campo”, da estação Correio da Kianda, segundo a qual “os peixes conseguem passar pelo processo de mutação genética, de fêmea para macho”, chamou a atenção dos internautas e motivou pedidos de verificação ao Verifica.ao.

A equipa do Verifica.ao analisou a afirmação e concluiu que há uma parte verdadeira, mas a explicação utilizada é cientificamente imprecisa.

É verdade que algumas espécies de peixes conseguem mudar de sexo ao longo da vida, inclusive passando de fêmea para macho. No entanto, não é correcto descrever esse fenómeno simplesmente como uma “mutação genética”.

Algumas espécies de peixes podem mudar de sexo

O fenómeno é conhecido como hermafroditismo sequencial. Quando a mudança ocorre de fêmea para macho, recebe o nome de protoginia.

Esta capacidade está documentada em diversas espécies de peixes, sobretudo entre peixes marinhos. Uma revisão científica sobre o fenómeno identificou centenas de espécies de peixes com hermafroditismo e concluiu que a protoginia — mudança de fêmea para macho — é a forma mais comum de hermafroditismo sequencial entre os peixes.

Um dos exemplos mais estudados é o bluehead wrasse (Thalassoma bifasciatum).

Nesta espécie, quando o macho dominante desaparece de um grupo, a maior fêmea pode assumir rapidamente comportamentos típicos de macho e iniciar uma transformação sexual. Estudos experimentais demonstraram que a alteração comportamental pode começar em pouco tempo e que a transformação das gónadas pode evoluir posteriormente para a formação de tecido testicular e produção de espermatozoides.

Mas é uma “mutação genética”?

Não exactamente.

É neste ponto que a afirmação de Francisco Semedo necessita de uma ressalva importante.

Uma mutação genética corresponde, em termos gerais, a uma alteração na sequência do ADN. A mudança de sexo observada nestes peixes não significa, simplesmente, que o ADN de uma fêmea sofra uma mutação e se transforme em “ADN de macho”.

O processo é muito mais complexo.

A investigação científica mostra que a mudança sexual envolve alterações na expressão e regulação de genes, nos níveis hormonais, no cérebro e nas gónadas, além de mecanismos epigenéticos e estímulos ambientais ou sociais.

No bluehead wrasse, por exemplo, estudos encontraram alterações na expressão de genes associados às funções ovarianas e testiculares durante a transição. A diminuição da actividade do gene associado à aromatase gonadal, que participa na produção de estrogénios, é acompanhada por alterações em vias moleculares relacionadas com o desenvolvimento masculino.

Por isso, há uma componente genética e molecular no processo, mas isso não significa que a mudança seja causada por uma simples “mutação genética”.

O que acontece no organismo?

De forma simplificada, em determinadas espécies o processo pode ser descrito assim:

Alteração social ou ambiental → alterações comportamentais e hormonais → alteração da expressão de genes → reorganização das gónadas → desenvolvimento da função reprodutiva masculina.

No bluehead wrasse, a retirada do macho dominante pode desencadear uma transformação na maior fêmea. Os estudos mostram que a alteração começa com mudanças comportamentais e hormonais e posteriormente envolve a degeneração do tecido ovariano e o desenvolvimento de tecido testicular.

Isto demonstra que o ambiente social pode desempenhar um papel determinante.

Não acontece com todos os peixes

Outro aspecto importante é que não se pode generalizar o fenómeno para todos os peixes.

A maioria das espécies de peixes não muda de sexo durante a vida. O hermafroditismo sequencial é uma estratégia reprodutiva relativamente rara entre os peixes ósseos.

Uma revisão científica estima que os peixes com esta estratégia representem cerca de 1,5% dos peixes teleósteos. Entre as espécies que apresentam mudança sequencial de sexo, a mudança de fêmea para macho é mais frequente do que a mudança de macho para fêmea.

Existem diferentes formas de mudança sexual:

  • Protoginia: fêmea → macho;
  • Protandria: macho → fêmea;
  • Mudança bidireccional: o indivíduo pode mudar de sexo em diferentes direcções, dependendo da espécie e das condições.

A literatura científica confirma as três formas em diferentes espécies de peixes.

O caso do bluehead wrasse

O bluehead wrasse é particularmente importante para compreender este fenómeno porque a sua mudança sexual foi estudada em condições naturais.

Investigadores observaram que, quando o macho dominante de um grupo é removido, a maior fêmea pode começar a apresentar comportamentos masculinos. Em determinadas condições, a transformação das gónadas ocorre posteriormente, permitindo que o animal passe a desempenhar funcionalmente o papel reprodutivo de macho.

Estudos mais recentes demonstraram ainda que a transformação envolve uma verdadeira reprogramação molecular, incluindo alterações na expressão de genes e mecanismos epigenéticos.

Então, qual é a classificação do Verifica.ao?

A frase:

“Os peixes conseguem passar pelo processo de mutação genética, de fêmea para macho.”

é PARCIALMENTE VERDADEIRA.

O que está correcto?

É verdadeiro que algumas espécies de peixes conseguem mudar naturalmente de sexo durante a vida, incluindo passar de fêmea para macho.

O que precisa de correcção?

É cientificamente impreciso afirmar que essa transformação ocorre simplesmente através de uma “mutação genética”.

O fenómeno envolve uma combinação complexa de alterações hormonais, comportamentais, fisiológicas, moleculares e na expressão dos genes, podendo ser desencadeado por factores sociais ou ambientais, dependendo da espécie.

Assim, uma formulação mais rigorosa seria:

“Algumas espécies de peixes conseguem mudar naturalmente de sexo durante a vida, inclusive de fêmea para macho, através de alterações hormonais, fisiológicas e na regulação da expressão dos genes.”

Essa formulação descreve melhor aquilo que a ciência actualmente conhece sobre o fenómeno.

Conclusão

A declaração analisada parte de um fenómeno biológico real, mas utiliza uma explicação que pode induzir o público a pensar que uma simples mutação do ADN transforma uma fêmea em macho.

Não é isso que os estudos científicos demonstram.

A mudança sexual em determinadas espécies de peixes é um fenómeno complexo de plasticidade sexual, no qual factores sociais ou ambientais podem desencadear alterações no comportamento, no sistema hormonal, na expressão genética e nas gónadas.

Por isso, o Verifica.ao classifica a afirmação como:

PARCIALMENTE VERDADEIRO

Fique atento ao Verifica.ao. A nossa missão é combater a desinformação e ajudar os cidadãos a distinguir factos de interpretações incorrectas, garantindo o acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.

Antes de partilhar uma afirmação científica, procure saber não apenas se o fenómeno existe, mas também se a explicação apresentada para esse fenómeno está correcta.

Verifica.ao — informação verificada para uma sociedade mais bem informada.

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