Circula nas redes sociais, com foco no WhatsApp e Instagram, um vídeo onde um alegado médico afirma que um “remédio caseiro”, feito à base de suco de beterraba, seria capaz de combater a doença de Alzheimer.

No vídeo, é distorcido um artigo científico que analisou a absorção de substâncias presentes no suco de beterraba pelo organismo, sem qualquer relação com uma possível forma de tratamento para o Alzheimer. A doença não tem cura.
A equipa do Verifica.ao investigou e a alegação feita no vídeo é enganosa.
O vídeo é acompanhado da seguinte legenda: “Remédio caseiro para Alzheimer”, onde um homem que se apresenta como médico fala sobre possíveis efeitos do suco de beterraba contra a doença. Ele cita um estudo científico que supostamente associaria o consumo da bebida ao combate ao Alzheimer e ensina uma receita caseira, que também leva maçã, limão e gengibre.
Por que é falso
Primeiramente, o Alzheimer não tem cura. A doença provoca uma deterioração progressiva das funções cerebrais, com comprometimento cognitivo e da memória, o que afeta a fala, a coordenação motora, a personalidade e a execução de tarefas cotidianas. A causa é desconhecida, embora haja uma certa predisposição genética que favoreceria seu surgimento. Não há uma cura para o Alzheimer.
Pesquisa não relaciona suco de beterraba ao tratamento de Alzheimer.
O estudo citado avaliou apenas um efeito vascular – ou seja, alterações no sistema circulatório, como artérias, veias e vasos linfáticos – após a ingestão de suco de beterraba. Porém, não foi feito uma análise a nível cerebral. Além disso, o efeito de substâncias da beterraba no organismo foi verificado por poucas horas, segundo o neurologista Bruno Iepsen, membro da Comissão Científica da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer).
Em entrevista ao UOL, o médico disse que o artigo “deixa claro que isso não reverte as alterações vasculares crônicas associadas à doença” e nem “estudou melhora na progressão do Alzheimer nesses indivíduos.
Estudo verificou absorção de nitrato e nitrito.
A pesquisa foi feita com 30 pessoas, divididas em três grupos de dez: um com adultos jovens, um com idosos saudáveis e outro com pacientes com provável diagnóstico de Alzheimer. Todos consumiram uma dose de 70ml de suco de beterraba e outra de placebo, uma bebida visualmente parecida, mas sem efeito ativo. O estudo concluiu que a absorção “não é suficiente para reverter as propriedades vasculares cronicamente adaptadas e restaurar completamente a responsividade vascular (capacidade do sistema cardiovascular de aumentar a quantidade de sangue bombeado) na doença de Alzheimer”. Ou seja: a hipótese de que pacientes com Alzheimer absorveriam mais nitrato e nitrito não se confirmou.
Médico repudiou conteúdo de posts enganosos.
“O vídeo viral distorce o estudo ao sugerir ‘cura’ ou ‘tratamento caseiro’. Ele cria falsas esperanças, pode levar famílias a gastar dinheiro e tempo com ‘atalhos’ e, pior, adiar avaliação médica, diagnóstico correto e intervenções que realmente ajudam”, afirmou Iepsen.
O neurologista observou ainda que o objetivo do estudo é completamente diferente do que afirma o vídeo no Instagram.
”[O objetivo] era entender quanto o suco fornece de nitrito e nitrato no sangue, e se isso tem relação com a melhora vascular”, explicou. “Só que os resultados foram negativos, porque todos os três grupos absorveram igual”.
“O estudo não tem esse objetivo de mostrar se o suco de beterraba melhora ou não o Alzheimer”, pontuou Melo.
“Apesar de a gente ter um processo vascular relacionado às demências, a demência de Alzheimer, o estudo não viu um desfecho”, afirmou. “Ele não fez um procedimento que resultou em uma melhora da cognição. [A recomendação do suco como remédio para a doença] é uma extrapolação”.
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