Uma declaração feita pela nutricionista Stianete Tati, durante a mais recente edição do podcast do Complexo Hospitalar General Pedalé, no âmbito do Outubro Rosa, mês dedicado à sensibilização para o cancro da mama, gerou reacções nas redes sociais. Na sua intervenção, a especialista afirmou que «não é aconselhável que pacientes com cancro da mama consumam alimentos grelhados».
A afirmação suscitou dúvidas entre os internautas, que solicitaram ao Verifica.ao uma verificação da sua veracidade.
A equipa do Verifica.ao analisou informações de instituições internacionais de oncologia e saúde, bem como recomendações científicas sobre alimentação, preparação de carnes e cancro. A conclusão é que a afirmação é ENGANOSA, uma vez que apresenta como recomendação médica geral uma proibição que não é sustentada pelas evidências consultadas.
O que dizem as evidências científicas?
O Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos (NCI) explica que a preparação de carnes a temperaturas elevadas, sobretudo quando são expostas directamente às chamas ou cozinhadas durante períodos prolongados, pode levar à formação de duas classes de substâncias: as aminas heterocíclicas (HCAs) e os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs).
Em experiências laboratoriais, estas substâncias demonstraram capacidade para provocar alterações no ADN. Estudos em animais também identificaram efeitos cancerígenos em determinadas condições de exposição. Contudo, o NCI esclarece que os estudos em seres humanos ainda não estabeleceram uma relação definitiva entre a exposição a estas substâncias através do consumo de carne cozinhada e o desenvolvimento de cancro.
A instituição acrescenta que a quantidade destas substâncias varia em função do tipo de carne, da temperatura, do tempo de preparação e do método de cozedura. Por isso, não é cientificamente correcto concluir que todos os alimentos grelhados apresentam o mesmo risco.
O que recomendam as instituições de oncologia?
A Sociedade Americana do Cancro (ACS) e o Fundo Mundial de Investigação do Cancro (WCRF) defendem padrões alimentares equilibrados, com consumo regular de frutas, vegetais, cereais integrais e fontes adequadas de proteína. As suas recomendações incluem também limitar o consumo de carne vermelha e evitar, ou consumir muito pouca, carne processada, devido à evidência da sua relação com o cancro colorrectal.
O WCRF esclarece que as recomendações alimentares para pessoas que vivem com cancro devem ser adaptadas à sua condição e às orientações dos profissionais de saúde. Estas recomendações não equivalem a uma proibição geral de alimentos grelhados para todos os pacientes com cancro da mama.
É igualmente importante distinguir as orientações destinadas a reduzir o risco de desenvolver determinados tipos de cancro das recomendações nutricionais para pessoas que já receberam um diagnóstico. Uma associação entre um factor alimentar e o risco de desenvolver uma doença não demonstra, por si só, que a exclusão desse alimento melhore a resposta ao tratamento ou impeça a progressão da doença.
As fontes consultadas não sustentam, portanto, a afirmação absoluta de que os pacientes com cancro da mama não devem consumir alimentos grelhados.
Que cuidados devem ter os pacientes com cancro da mama?
Embora não exista uma proibição geral cientificamente estabelecida, é possível adoptar medidas prudentes na preparação dos alimentos. O Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos recomenda evitar a exposição directa da carne às chamas, reduzir os tempos prolongados de cozedura a temperaturas elevadas, virar a carne frequentemente e retirar as partes queimadas ou muito carbonizadas. Alternar entre métodos de preparação, como cozer, estufar, assar e grelhar, também pode ajudar a reduzir a exposição a algumas destas substâncias.
Estas medidas dizem respeito à redução da formação de compostos potencialmente nocivos e não constituem um tratamento para o cancro da mama.
Durante o tratamento oncológico, as necessidades nutricionais podem variar em função do estado clínico, dos efeitos secundários da medicação, do apetite e da condição nutricional de cada pessoa. Por esse motivo, as alterações significativas à alimentação devem ser discutidas com o oncologista ou com um nutricionista com experiência em oncologia.
Conclusão da verificação
A afirmação é classificada como ENGANOSA. É verdade que a preparação de carnes a temperaturas elevadas pode originar substâncias potencialmente nocivas, mas a evidência disponível não permite concluir que todos os alimentos grelhados sejam inadequados para pessoas com cancro da mama. As fontes consultadas também não estabelecem uma proibição universal deste método de preparação para estes pacientes.
A declaração da especialista generaliza riscos associados a determinadas condições de preparação de carnes e apresenta-os como uma recomendação aplicável a todos os pacientes com cancro da mama, sem que essa conclusão esteja sustentada pelas orientações científicas consultadas.
Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que as pessoas tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.













