Durante o encerramento da 17.ª Cimeira de Negócios Estados Unidos – África, a deputada da UNITA, Mihaela Webba, declarou que “nos últimos oito anos, o Governo Angolano conseguiu mais financiamentos do que investimentos”. A afirmação gerou bastante polémica nas redes sociais, com muitos internautas a questionarem a sua veracidade.
Verificação
A equipa do Verifica.ao analisou a declaração à luz de dados económicos recolhidos entre 2017 e 2024, focando-se em dois indicadores principais:
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Financiamentos externos: como empréstimos bilaterais, multilaterais e linhas de crédito.
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Investimento Directo Estrangeiro (FDI): entrada líquida de capitais estrangeiros com fins de investimento no país.
Financiamentos
A análise mostra que Angola obteve, ao longo dos últimos 8 anos, volumes significativos de financiamento externo. Entre os principais dados confirmados:
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Banco Mundial: US$ 781 milhões em apoios não reembolsáveis até 2022.
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China: cerca de US$ 21 mil milhões entre 2000–2014; em 2024, novo pacote de US$ 1,5 mil milhões.
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DFC (EUA): US$ 553 milhões para o Corredor do Lobito (2023–2024).
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USAID: cerca de US$ 235 milhões desde 2023.
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Linhas de crédito diversas, incluindo do FMI e Banco Africano de Desenvolvimento, reforçam os pacotes anuais de financiamento.
Mesmo com variações anuais, os dados sugerem que os financiamentos superaram os US$ 2 mil milhões por ano em média, com destaque para os anos de 2020 a 2024.
Investimentos Diretos Estrangeiros (FDI)
O FDI em Angola seguiu uma trajectória mais volátil:
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Em 2015, o stock de FDI era de US$ 32,3 mil milhões, caindo para cerca de US$ 12–14 mil milhões até 2024 — uma redução de aproximadamente 60%.
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Fluxos negativos em 2020 e 2021 indicam saídas líquidas de capital.
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O ano de 2023 registou recuperação (US$ 4,08 mil milhões), impulsionado por grandes projectos como o Corredor do Lobito.
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Mesmo com alguma recuperação nos últimos dois anos, os fluxos de FDI não superaram os valores históricos, nem acompanharam o crescimento dos financiamentos.
Tabela Resumo: Financiamentos vs. FDI (2017–2024)
| Ano | Financiamentos (US$ bi) | FDI (US$ bi) | Observações |
|---|---|---|---|
| 2017 | ~2,0 | ~3,0 | FDI ainda positivo, mas em queda |
| 2018 | ~2,5 | ~2,5 | Início de saída líquida de FDI |
| 2019 | ~2,8 | ~1,5 | Retração no setor petrolífero |
| 2020 | ~3,2 | -1,9 | Pandemia, FDI negativo |
| 2021 | ~2,5 | -1,5 | Continuação de retirada líquida |
| 2022 | ~3,0 | ~0,8 | Recuperação tímida |
| 2023 | ~2,7 | 4,08 | FDI recupera, mas ainda moderado |
| 2024 | ~3,5 (estimado) | ~5,0 (estimado) | Novos investimentos, ainda abaixo dos picos |
Conclusão
A afirmação da deputada Mihaela Webba é VERDADEIRA. Os dados mostram que, entre 2017 e 2024, Angola recebeu mais recursos sob forma de financiamentos (empréstimos, créditos, apoios externos) do que em investimentos directos estrangeiros (FDI). Apesar da recente recuperação no investimento, os volumes de financiamento superaram de forma consistente os fluxos líquidos de FDI, especialmente durante os anos críticos da pandemia e crise petrolífera.
A equipa do Verifica.ao reforça a importância de confirmar sempre os dados antes de partilhar ou contestar informações. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que o público angolano tenha acesso a conteúdos verificados, precisos e confiáveis.
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