Nos últimos dias, começaram a circular nas redes sociais e em grupos de WhatsApp áudios atribuídos a uma estudante universitária e a um professor, relacionados com um caso de agressão que ganhou ampla repercussão nas plataformas digitais.
As gravações são partilhadas juntamente com mensagens que apresentam como facto a alegação de que a estudante teria atraído o docente para uma unidade de hospedagem com o objectivo de o surpreender, após supostas investidas de natureza sexual relacionadas com o seu desempenho académico.
Perante a rápida disseminação destes conteúdos, vários internautas solicitaram ao Verifica.ao a verificação da sua autenticidade.
Veredicto: FALSO
A investigação do Verifica.ao concluiu que os áudios que circulam nas redes sociais não constituem gravações autenticadas das pessoas às quais são atribuídos.
Não foram apresentados elementos que comprovem a origem, a data, a integridade ou a autenticidade das gravações. Por isso, não é legítimo utilizar esses áudios como prova das alegações que circulam sobre o caso.
Em particular, as gravações atribuídas à estudante e ao professor não comprovam as alegadas conversas ou propostas que lhes são atribuídas nas mensagens virais.
O caso que está confirmado pelas autoridades
É importante separar os conteúdos falsos que surgiram posteriormente dos factos relacionados com o caso que foram divulgados pelas autoridades.
O Serviço de Investigação Criminal (SIC) informou sobre a detenção de dois cidadãos suspeitos de envolvimento nas agressões contra o respectivo docente universitário, cujo vídeo foi amplamente partilhado nas redes sociais.
Segundo o SIC, a ocorrência aconteceu no final de Julho, numa unidade de hospedagem localizada no município do Talatona, em Luanda.
O órgão de investigação criminal esclareceu igualmente que os envolvidos não são efectivos do SIC nem pertencem a qualquer outro órgão de Defesa e Segurança. Trata-se, segundo as autoridades, de cidadãos civis.
O SIC informou ainda que as diligências prosseguem e que, além das alegadas ofensas à integridade física, os factos poderão configurar outras infracções, nomeadamente sequestro e extorsão.
Estas são, contudo, matérias que continuam sob investigação e cuja responsabilidade criminal deverá ser determinada pelas autoridades competentes e, posteriormente, pelos tribunais.
Os áudios não podem ser utilizados para “completar” a história
Depois da divulgação do vídeo relacionado com as agressões, começaram a surgir diferentes versões sobre o que teria acontecido antes e durante o episódio.
É precisamente neste ambiente que apareceram os áudios agora analisados.
O problema é que um áudio sem origem comprovada não se transforma em prova apenas porque é partilhado milhares de vezes.
Não basta atribuir uma voz a determinada pessoa para concluir que ela efectivamente proferiu aquelas palavras. O ficheiro pode ter sido editado, manipulado, retirado de outro contexto ou até produzido artificialmente.
Por isso, a circulação de uma gravação acompanhada de uma narrativa não significa que essa narrativa esteja comprovada.
A falsa informação pode causar novos danos
Para além do caso criminal em investigação, a circulação destes áudios introduz uma nova dimensão de desinformação.
Pessoas que não tiveram qualquer participação na produção dos conteúdos podem passar a ser associadas a declarações que nunca fizeram. E, quando as alegações envolvem supostos comportamentos sexuais, os danos podem ser particularmente graves.
A reprodução de áudios falsos pode resultar em exposição indevida da vida privada, danos à reputação, humilhação pública, assédio digital, acusações sem provas e disseminação de informações potencialmente difamatórias.
Por esse motivo, o Verifica.ao decidiu não reproduzir os áudios nem identificar os cidadãos envolvidos, uma vez que fazê-lo contribuiria para ampliar a circulação de conteúdos cuja autenticidade não está comprovada.
Não transforme as redes sociais num tribunal
O caso deve ser analisado com prudência.
Existe uma investigação criminal sobre as agressões e existem informações divulgadas pelas autoridades. Isso, contudo, não significa que todas as versões, vídeos, áudios e mensagens que surgiram posteriormente nas redes sociais sejam verdadeiros.
Da mesma forma, pessoas suspeitas de envolvimento num crime não devem ser consideradas culpadas antes de uma decisão judicial definitiva.
A verificação de factos deve ajudar precisamente a separar estas duas dimensões: aquilo que está oficialmente confirmado e aquilo que está apenas a circular na internet.
Conclusão do Verifica.ao: FALSO
É falsa a utilização dos áudios que circulam nas redes sociais como supostas gravações autênticas da estudante e do professor envolvidos no caso.
Não existe comprovação da autenticidade dessas gravações, pelo que as alegações que as acompanham não podem ser apresentadas como factos.
O caso das agressões é uma questão distinta e encontra-se sob investigação das autoridades. A existência dessa investigação não valida os áudios posteriormente divulgados nem as narrativas construídas em torno deles.
O Verifica.ao recomenda aos utilizadores que não partilhem gravações de origem desconhecida, sobretudo quando envolvem acusações graves ou aspectos da vida privada de pessoas identificáveis.
Fique atento ao Verifica.ao
Num momento em que conteúdos falsos podem alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, verificar antes de partilhar é também uma forma de proteger outras pessoas contra a desinformação.
O Verifica.ao continuará a acompanhar este e outros casos de interesse público, com o compromisso de distinguir factos comprovados de rumores, manipulações e conteúdos falsos.
Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informação precisa, confiável e verificada.
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