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Verifica.ao revela: Aumenta uso de IA para criar falsas imagens de alegados criminosos

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A Inteligência Artificial (IA) está a transformar a forma como as pessoas produzem e consomem conteúdos digitais. Se, por um lado, esta tecnologia traz inúmeras oportunidades, por outro, também está a ser utilizada para alimentar campanhas de desinformação que colocam em risco a segurança pública, a reputação de cidadãos inocentes e o próprio trabalho das autoridades.

Uma investigação conduzida pela equipa do Verifica.ao identificou um fenómeno cada vez mais frequente em Angola: a utilização de ferramentas de Inteligência Artificial para criar ou manipular fotografias de alegados suspeitos de crimes, que posteriormente são difundidas como se fossem imagens reais.

Em praticamente todos os casos analisados pela nossa redacção, as imagens eram apresentadas como sendo dos presumíveis autores de crimes mediáticos, quando, na realidade, não existia qualquer confirmação oficial da sua autenticidade.

O fenómeno representa uma nova dimensão da desinformação digital e levanta sérias preocupações sobre a utilização irresponsável da Inteligência Artificial.

Fotografias falsas começaram a circular após assalto ao BAI da Cidadela

Um dos casos mais recentes ocorreu após o assalto registado na manhã de quarta-feira (08) a uma agência do Banco BAI, localizada na Cidadela Desportiva, em Luanda.

Poucas horas depois do crime, começaram a circular no Facebook, TikTok, WhatsApp e outras plataformas várias fotografias que alegadamente mostravam os presumíveis autores do assalto.

As publicações eram acompanhadas por mensagens que afirmavam que aqueles seriam os criminosos procurados pela Polícia Nacional, incentivando os utilizadores a partilharem as imagens para facilitar a captura dos suspeitos.

A investigação do Verifica.ao demonstrou, no entanto, que essas fotografias não eram autênticas.

A nossa redacção submeteu as imagens a diferentes ferramentas especializadas na detecção de conteúdos gerados por Inteligência Artificial, tendo sido identificados fortes indícios de manipulação digital e de geração artificial dos rostos.

Além disso, até ao momento da circulação dessas imagens, a Polícia Nacional não tinha divulgado qualquer fotografia oficial dos presumíveis autores do assalto.

Ou seja, as imagens que milhares de pessoas partilharam não correspondiam à realidade e quando foram apresentados os suspeitos do referido assalto, mais uma vez, as fotografias mostraram-se falsa.

O mesmo fenómeno repetiu-se no caso da cantina no bairro Paraíso

Situação semelhante voltou a verificar-se nos últimos dias, na sequência de um assalto ocorrido numa cantina localizada no bairro Paraíso.

Logo após o crime, começaram novamente a circular fotografias que alegadamente identificavam os responsáveis.

A investigação do Verifica.ao concluiu que, embora algumas imagens apresentassem elevado grau de realismo, também tinham sido criadas ou profundamente alteradas através de ferramentas de Inteligência Artificial.

Mais uma vez, as fotografias não correspondiam a qualquer divulgação oficial das autoridades.

Apesar disso, milhares de utilizadores continuaram a partilhar as imagens como se fossem verdadeiras, atribuindo identidades e crimes a pessoas cuja ligação aos factos nunca foi comprovada.

Porque este fenómeno é tão preocupante?

A divulgação de fotografias falsas associadas a crimes constitui uma das formas mais graves de desinformação.

Ao contrário de um simples rumor, uma fotografia transmite uma sensação imediata de autenticidade.

Quando um cidadão vê uma imagem acompanhada da frase “este é o assaltante”, tende naturalmente a acreditar que existe uma confirmação oficial.

Contudo, na maioria das vezes isso não acontece.

O resultado pode ser devastador.

Entre os principais riscos destacam-se pessoas inocentes podem ser identificadas como criminosas, reputações podem ser destruídas em poucas horas, famílias podem sofrer ameaças ou perseguições, as autoridades podem receber denúncias falsas, desviando recursos de investigações reais e aumenta-se a confusão pública sobre quem são os verdadeiros suspeitos.

Em determinados casos, estas imagens podem inclusive comprometer investigações policiais em curso.

A IA tornou extremamente fácil fabricar rostos

Nos últimos meses, o Verifica.ao tem observado um crescimento significativo da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial capazes de produzir fotografias extremamente realistas.

Actualmente, basta uma descrição escrita para gerar, em poucos segundos, o rosto de uma pessoa que nunca existiu.

Existem igualmente aplicações que permitem alterar completamente fotografias reais, modificar rostos, trocar características físicas ou criar cenas que nunca aconteceram.

O resultado é muitas vezes tão convincente que se torna difícil para um cidadão comum distinguir uma fotografia verdadeira de uma imagem artificial.

Esta realidade está a ser explorada por utilizadores mal-intencionados para fabricar falsas provas, criar alegados suspeitos, atribuir crimes inexistentes a determinadas pessoas ou manipular acontecimentos com elevado impacto mediático.

O impacto na confiança pública

Outro efeito preocupante desta prática é a perda gradual de confiança nas imagens que circulam na Internet.

Quando os cidadãos passam a encontrar diariamente fotografias manipuladas, torna-se mais difícil distinguir conteúdos verdadeiros de conteúdos fabricados.

Este fenómeno, conhecido internacionalmente como “poluição informativa”, prejudica não apenas o trabalho dos jornalistas, mas também das forças de investigação criminal e da própria Justiça.

Quanto maior for a circulação de conteúdos falsos, maior será a dificuldade em identificar provas autênticas.

Porque devemos esperar pelas autoridades?

Em qualquer investigação criminal, compete às autoridades recolher provas, identificar suspeitos e divulgar, quando necessário, informações oficiais que possam contribuir para a captura dos responsáveis.

A publicação antecipada de imagens não confirmadas pode colocar pessoas inocentes em risco, prejudicar diligências policiais, criar falsas pistas, dificultar o reconhecimento dos verdadeiros suspeitos e comprometer processos judiciais futuros.

Por essa razão, especialistas em segurança digital e verificação de factos recomendam que os cidadãos aguardem sempre pelas comunicações oficiais antes de partilharem fotografias relacionadas com crimes.

O papel do jornalismo de verificação

Num contexto em que a Inteligência Artificial permite criar conteúdos cada vez mais sofisticados, o papel das plataformas de verificação de factos torna-se ainda mais relevante.

Mais do que desmentir rumores, o trabalho consiste em analisar imagens, verificar a sua origem, recorrer a ferramentas especializadas de detecção de manipulação digital e confrontar as alegações com informações oficiais.

O objectivo é evitar que conteúdos falsos sejam confundidos com provas reais.

Conclusão

A Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa e continuará a fazer parte do nosso quotidiano. No entanto, o seu uso irresponsável pode transformar-se numa ameaça à informação pública e à própria administração da justiça.

Os casos do assalto ao BAI da Cidadela e da cantina do bairro Paraíso demonstram como fotografias falsas podem espalhar-se rapidamente e criar narrativas sem qualquer base factual.

A divulgação de imagens fabricadas não ajuda a capturar criminosos. Pelo contrário, dificulta investigações, prejudica pessoas inocentes e contribui para a propagação da desinformação.

Fique atento ao Verifica.ao

Antes de partilhar fotografias de alegados suspeitos, confirme sempre se foram divulgadas oficialmente pelas autoridades competentes. Desconfie de imagens que surgem primeiro em grupos de WhatsApp ou páginas anónimas e que não são acompanhadas de qualquer comunicado oficial.

O Verifica.ao continuará a acompanhar a utilização da Inteligência Artificial na criação de conteúdos enganosos e a combater a desinformação, garantindo que os cidadãos tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas, promovendo uma sociedade mais informada, responsável e resistente às falsas narrativas.

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