Notícias falsas, uso indevido da imagem de celebridades e promessas de lucro rápido e fácil com investimentos auxiliados por inteligência artificial (IA). É assim que uma rede internacional está atraindo pessoas, em Angola e no mundo, para plataformas financeiras de alto risco. Segundo relatos de vítimas, após captar o dinheiro de investidores, as empresas cortam contato e desaparecem sem dar explicações. Pelo que a redacção do Verifica.ao apurou, a registro de vários angolanos que perderam milhares de kwanzas em uma das plataformas.
Uma Investigação inédita da plataforma de fact-check Lupa reuniu, ao longo de seis meses, 69 páginas fraudulentas operando no Brasil e em outros 12 países. Por trás das promessas de alto lucro presentes nas páginas, estão pelo menos quatro corretoras de investimento com sede em paraísos fiscais ou países com regime fiscal flexível.
O início de tudo: notícias falsas e promessa de lucro rápido
O esquema começa com uma falsa notícia atribuída indevidamente a grandes veículos de comunicação — como Globo e CNN no Brasil — que é compartilhada nas redes sociais e em sites, afirmando que, em um programa de televisão de ampla audiência, uma celebridade revelou uma suposta fórmula para ganhar muito dinheiro, de forma rápida e fácil. A própria página alega que a revelação “virou notícia” porque o método deveria permanecer em segredo e que autoridades financeiras estariam à procura do quem contou o que não devia.
O padrão se repete em publicações compartilhadas em diversos países, com pequenas adaptações de idioma e celebridades locais. Confira a lista de personalidades estampadas em páginas falsas.

Em torno dessa história fictícia, surge a promessa central: uma plataforma de investimento em criptomoedas que, supostamente, utiliza inteligência artificial (IA) para “ler o mercado” e executar automaticamente apenas transações lucrativas. O apelo é direto e persuasivo:
“Você nem precisa saber nada sobre criptomoedas, a plataforma faz tudo. Tudo que você precisa é depositar um valor inicial e pronto!”, diz uma das publicações, que atribui a fala ao empresário e influenciador brasileiro Pablo Marçal.
Em diferentes páginas, com celebridades variadas em destaque, a história se repete com poucas alterações. Chama atenção, também, o uso de imagens idênticas legendadas de forma diferente em diversas publicações, como no exemplo a seguir, que mostra uma mesma pessoa com nomes distintos.

Notícias falsas levam a plataformas de fachada
Em geral, as páginas forjando portais de notícias são disponibilizadas em sites — muitas vezes em anúncios — que nada têm a ver com investimentos ou mercado financeiro. A reportagem encontrou conteúdos fraudulentos no hashnode.com (24), no hackmd.io (10), no nas.io (6), no medium.com (5) e no blogspot.com (1), plataformas de tecnologia destinadas a diferentes fins, como blogs pessoais ou edição colaborativa de conteúdo.
Ao disseminar as notícias falsas em páginas de terceiros, os golpistas dificultam a identificação dos rastros digitais do conteúdo falso. Em outras palavras, caso alguém queira investigar de onde aquele conteúdo saiu, vai encontrar a identificação digital (IP) da plataforma que o hospeda e não do verdadeiro criador da notícia falsa.
As páginas fraudulentas seguem o mesmo padrão: têm textos parecidos e até fotos idênticas. Mas os nomes das supostas plataformas lucrativas mudam conforme cada versão: nas 69 páginas identificadas pela Lupa, foram divulgados 57 nomes diferentes de plataformas de investimento, muitos dos quais apelam a palavras-chave que remetem à ideia de eficiência. Na prática, as plataformas apresentadas como milagrosas funcionam apenas como iscas que vão levar o usuário para páginas de outras empresas.

Por trás das fakes
Para identificar o destino final das propagandas enganosas, a reportagem se inscreveu — com dados fictícios —, nas plataformas indicadas pelas notícias falsas. Dos 69 links coletados ao longo dos seis meses de apuração, somente 33 estavam ativos no Brasil no momento dos testes.
Desses, 29 levavam a páginas hospedadas em um mesmo domínio, registrado pela MainReg INC., empresa que já foi mencionada em um relatório de segurança digital como a responsável pelo registro de cerca de 400 sites ligados a golpes de investimento ou de relacionamento online.
Os links disponíveis para acesso levaram, então, a cinco plataformas distintas, sendo que uma não permitiu o cadastro. Foram identificadas, portanto, quatro corretoras associadas ao esquema: Vexith Capital, Fianzo, Market10 e VenturyFX.
Entenda caso a caso:
- Fianzo: Plataforma de investimentos com site ativo há menos de um ano. No próprio site, a empresa afirma operar sob o nome Value Team LTD., registrado em Castries, capital de Santa Lúcia, no Caribe — um paraíso fiscal conhecido por facilitar o registro de companhias estrangeiras.
- Market10: Criada em julho de 2025, que anteriormente operava sob o nome “Investico”. É administrada pela Faraz Financial Services (Pty). A empresa é sediada na África do Sul, país que não é classificado como paraíso fiscal, mas integra a chamada “lista cinza” do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional, conhecido pela sigla em inglês FATF). Essa lista reúne nações que apresentam deficiências estratégicas no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Na prática, significa que o país está sob monitoramento reforçado do grupo e precisa adotar medidas adicionais para melhorar seus mecanismos de controle financeiro.
- Vexith Capital: Com site ativo há menos de três meses, que opera sob o nome comercial Fortis Financial Group, entidade também registrada nas ilhas Comores, também na lista cinza do GAFI.
- VenturyFX: Criada em novembro de 2021, operada pelo grupo Smart Trade Group Ltd, que mantém uma estrutura corporativa complexa distribuída em três entidades, localizadas em diferentes países. O grupo atua por meio da Smart Trade Ltd, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, Starmove Services Ltd, registrada na República de Chipre — ambos paraísos fiscais —, e da SmartCFD, registrada nas Ilhas Comores. Embora seja a empresa com maior tempo de atividade, a corretora já foi alvo alertas de autoridades financeiras na Espanha (outubro de 2023) e no Chile (agosto de 2025), por operar sem autorização.
Atuar a partir desses países não é, por si só, sinal de fraude, segundo o professor do Insper e advogado especialista em direito econômico e financeiro Isac Silveira Costa. Empresas legítimas também recorrem a essas jurisdições em busca de incentivos fiscais. O problema, afirma, é que operar nesses locais pode dificultar — e, em alguns casos, impedir — a recuperação de valores perdidos ou a responsabilização dos envolvidos em golpes.
Silveira Costa explica que além da verificação cadastral, investidores devem ficar atentos a outros sinais que costumam caracterizar ofertas fraudulentas:
- Promessas de rentabilidade irrealista: ganhos elevados, rápidos e, sobretudo, “garantidos”.
- Pressão para decisão imediata: uso de gatilhos de urgência como “oportunidade única”, “últimas vagas” ou “bônus que expira hoje”.
- Abordagem não solicitada: contato inicial feito através de redes sociais, aplicativos de mensagem como WhatsApp ou e-mails não solicitados.
- Falta de documentação: ausência de materiais formais como prospectos, lâminas de informações essenciais ou contratos que detalham os riscos do investimento.
- Dificuldade de verificação: respostas evasivas quando questionados sobre o número de registro na CVM ou em outro regulador de primeira linha.
Abordagem agressiva para captar recursos e, depois, sumiço
Após o cadastro nas ferramentas de investimento, supostos assessores passam a entrar em contato por telefone e WhatsApp para convencer os usuários a investir quantias em dólar. As interações costumam ser insistentes e invasivas, com ligações diárias, mensagens fora do horário comercial e tentativas de contato que se estendem por semanas.
Em um dos testes realizados pela Lupa, na plataforma Fianzo, o contato da suposta empresa foi imediato. Por telefone, um homem que se apresentou como assessor fez perguntas básicas sobre perfil de investimento e afirmou que uma ferramenta de inteligência artificial (IA) realizaria operações financeiras de forma “inteligente”, mediante um depósito mínimo de US$ 250. Em nenhum momento da conversa houve qualquer alerta sobre riscos.
A reportagem pediu o envio de informações detalhadas sobre o investimento por escrito, mas o assessor se negou, dizendo que poderia tirar quaisquer dúvidas ali mesmo, por telefone. Diante da recusa em prosseguir na ligação, houve insistência para que a aplicação financeira fosse feita de forma apressada, com tentativas de manter a chamada na linha.
Estratégia golpista se disseminou pelo mundo
O relatório Global State of Scams 2024 (Situação Global de Golpes, em tradução livre), publicado pela Aliança Global Anti-Golpes em parceria com a empresa de prevenção a fraudes Feedzai, aponta que cidadãos de todo o mundo perderam US$ 1,03 trilhão para golpistas no ano passado.
Embora os maiores prejuízos individuais aconteçam em países como Estados Unidos, Dinamarca e Suíça, o impacto coletivo tende a ser maior em países em desenvolvimento. As perdas no Paquistão, por exemplo, representam 4,6% do PIB do país em 2024.
Angola tem sido um dos países que tem crescido as ocorrências de golpes, ao lado da Austrália e da África do Sul. No mundo, 19% dos entrevistados já se viram diante de um golpe do investimento.
Em junho deste ano, o Centro de Pesquisa e Análise Digital Forense (DFRAC), da Índia, publicou um estudo em que revela 320 golpes de investimento com uso de imagens de celebridades que circularam no X e em redes da Meta entre os meses de fevereiro, março e abril. De acordo com a pesquisa, o golpe acontece desde, pelo menos, 2023.
Os achados estão de acordo com outra investigação estrangeira. Em agosto passado, a multinacional russa Group-IB, especializada em ameaças digitais, também expôs que o mesmo tipo de golpe tem se disseminado em diversas plataformas online, inclusive em redes sociais. De acordo com a empresa, “Golpes de investimento com IA são uma ameaça crescente que explora a confiança em tecnologias emergentes e promove uma sofisticada manipulação psicológica e de mídia para enganar as vítimas”.
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Esta investigação faz parte de “Os Desinformantes”, uma série de investigações sobre diferentes atores que desinformam na região, realizada pela LatamChequea, a rede de verificadores latino-americanos. Esta matéria foi realizada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, coordenado pela Chequeado e financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva da Agência Lupa e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.
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