Nos últimos dias, tem circulado nas redes sociais e em grupos do WhatsApp um vídeo acompanhado por um áudio que afirma que várias crianças morreram na República Democrática do Congo (RDC) depois de receberem a vacina contra a Mpox, também conhecida como varíola dos macacos.

No áudio, que aparenta ser a voz de uma encarregada de educação, é feito um apelo aos pais para que não permitam que os seus filhos sejam vacinados contra a Mpox. A gravação afirma ainda que o Ministério da Saúde estaria a preparar uma campanha de vacinação de crianças contra a doença.
A equipa do Verifica.ao investigou
A equipa do Verifica.ao analisou o vídeo, o áudio e a informação que acompanha a publicação e concluiu que a alegação é falsa.
As imagens não mostram crianças que tenham adoecido ou morrido depois de receberem a vacina contra a Mpox.
O vídeo corresponde, na realidade, a um incêndio ocorrido numa zona escolar de Bukavu, no Sud-Kivu, na República Democrática do Congo, a 10 de Setembro de 2026.
O que aconteceu em Bukavu?
O incêndio começou numa zona densamente povoada do bairro Cimpunda, na comuna de Kadutu, em Bukavu, e alastrou rapidamente a edifícios vizinhos, incluindo duas escolas.
As escolas Ujamaa e Furaha foram atingidas pelas chamas. Muitos alunos ficaram presos ou foram surpreendidos pelo incêndio durante o período de aulas.
Várias crianças foram retiradas do local e transportadas para unidades sanitárias devido a inalação de fumo, queimaduras e ferimentos provocados durante a fuga. Testemunhos e relatos locais indicam que houve também situações de pânico e atropelamento entre os alunos que tentavam escapar pelas saídas.
O incêndio provocou ainda elevados danos materiais. Segundo relatos publicados após a tragédia, mais de 300 habitações foram destruídas pelas chamas.
Houve crianças mortas no incêndio?
Sim.
Este é um ponto importante para compreender a desinformação.
O incêndio de Bukavu provocou efectivamente mortes entre os alunos, mas não há evidências de que essas mortes tenham qualquer relação com a vacinação contra a Mpox.
Um balanço divulgado inicialmente pelas autoridades locais apontava para 24 crianças mortas e 29 feridos.
Posteriormente, um relatório dos serviços provinciais de educação de Bukavu indicou um balanço provisório de 29 alunos mortos e 25 feridos. O documento referia que algumas vítimas morreram por asfixia e outras durante as situações de pânico e atropelamento provocadas pela tentativa de fuga.
Dias depois, a imprensa internacional noticiou uma cerimónia fúnebre em Bukavu em homenagem a 27 estudantes mortos no incêndio, mostrando que o número de vítimas ainda era objecto de actualização.
Assim, embora existam diferenças nos balanços provisórios divulgados pelas autoridades e pelos órgãos de comunicação social, está confirmado que o incêndio causou vítimas mortais entre as crianças.
Não há evidências de relação com a vacina contra a Mpox
As informações disponíveis não estabelecem qualquer relação entre as mortes ocorridas em Bukavu e uma campanha de vacinação contra a Mpox.
As fontes que relataram o incêndio descrevem vítimas afectadas pelas chamas, fumo e pelo movimento de fuga durante o incêndio, e não por uma reacção à vacina.
O vídeo foi, portanto, retirado do seu contexto original e associado a uma narrativa falsa sobre vacinação.
E a vacinação contra a Mpox em Angola?
A circulação do vídeo também mistura o acontecimento ocorrido na RDC com a actual situação epidemiológica de Angola.
Segundo dados divulgados pelas autoridades sanitárias angolanas em 10 de Setembro de 2026, Angola tinha registado 442 casos confirmados de Mpox em 11 províncias, além de dois óbitos associados à doença.
No âmbito da resposta ao surto, Angola mobilizou 50 mil doses de vacina contra a Mpox. As doses estão a ser administradas de forma estratégica e prioritária, devido à disponibilidade limitada da vacina a nível mundial.
A informação oficial disponível indica que a vacinação está a priorizar contactos de pessoas infectadas e profissionais de saúde que trabalham directamente com casos da doença.
Em Cabinda, por exemplo, a campanha provincial de vacinação começou em Setembro e contemplou prioritariamente profissionais de saúde, pacientes com Mpox, habitantes de zonas fronteiriças e populações dos municípios mais afectados.
Não há confirmação oficial de vacinação de crianças em Angola
Até ao momento da publicação deste fact-check, não encontrámos informação oficial do Ministério da Saúde que anuncie uma campanha nacional de vacinação contra a Mpox especificamente dirigida a crianças, como afirma o áudio que acompanha o vídeo.
O Ministério da Saúde tem divulgado informações sobre vigilância, prevenção, controlo e resposta à Mpox, mas a alegação de que estaria a preparar uma campanha de vacinação de crianças não é sustentada pelas informações oficiais consultadas.
Por isso, os pais e encarregados de educação devem evitar tomar decisões com base em áudios ou vídeos que circulam no WhatsApp e procurar informações directamente junto das autoridades sanitárias e dos canais oficiais.
Veredicto
FALSO.
É falso que o vídeo mostre crianças que morreram na República Democrática do Congo depois de receberem a vacina contra a Mpox.
As imagens correspondem a um incêndio ocorrido em 10 de Setembro de 2026, em Bukavu, no Sud-Kivu, que atingiu duas escolas e provocou mortes e feridos entre os alunos. Os balanços provisórios divulgados pelas autoridades e pelos órgãos de comunicação social apontaram para 24 a 29 crianças mortas, dependendo da actualização e da fonte consultada.
Não há evidências que relacionem essas mortes com a vacinação contra a Mpox.
Em Angola, as autoridades mobilizaram 50 mil doses da vacina e estão a utilizá-las de forma prioritária, mas não há, até ao momento, anúncio oficial de uma campanha nacional de vacinação de crianças contra a Mpox.
Este caso demonstra como imagens reais de uma tragédia podem ser reutilizadas para sustentar uma narrativa completamente diferente e provocar medo na população.
Fique atento ao Verifica.ao. Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que as pessoas tenham acesso a informações precisas, confiáveis e verificadas.
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