Uma publicação do criador de conteúdos Mariano Almeida, segundo a qual “escolas privadas no Rwanda fecham porque as públicas têm qualidade”, alcançou milhares de visualizações, comentários e partilhas nas redes sociais.

A afirmação gerou dúvidas entre os internautas, que solicitaram ao Verifica.ao uma verificação dos factos.
A equipa do Verifica.ao consultou dados oficiais do sistema de educação do Ruanda e informações de instituições internacionais e concluiu que não existem evidências que sustentem a afirmação de que as escolas privadas estejam a fechar em massa porque as escolas públicas alcançaram uma qualidade superior.
Dados oficiais não mostram desaparecimento das escolas privadas
Os dados mais recentes do Ministério da Educação do Ruanda (MINEDUC) mostram que as escolas privadas continuam a fazer parte significativa do sistema educativo do país.
No ano lectivo 2024/2025, o Ruanda registava 1.337 escolas privadas considerando os níveis de pré-primário, primário, secundário e TVET L1-L5, contra 1.340 no ano anterior.
A redução global foi, portanto, de apenas três escolas, e não corresponde a um cenário de encerramento generalizado.
O mesmo relatório mostra ainda que, no conjunto do sistema educativo, o número total de escolas passou de 4.986, em 2023/2024, para 4.996 em 2024/2025.
Ou seja, os dados oficiais não sustentam a narrativa de que as escolas privadas estejam a desaparecer porque perderam espaço para as escolas públicas.
Houve escolas privadas encerradas?
Sim.
Este é um elemento importante para compreender como uma informação verdadeira pode ser transformada numa narrativa falsa.
A autoridade ruandesa responsável pela inspecção e avaliação das escolas, a National Examination and School Inspection Authority (NESA), tem competência para supervisionar escolas públicas, subsidiadas pelo Governo e privadas, bem como para suspender ou encerrar estabelecimentos quando necessário.
Portanto, o encerramento de determinadas escolas privadas não significa que o sector privado esteja a ser eliminado ou que as escolas estejam a fechar porque as públicas se tornaram melhores.
Para sustentar essa conclusão seria necessário demonstrar uma relação causal entre a qualidade das escolas públicas e os encerramentos — algo que os dados consultados pelo Verifica.ao não demonstram.
O Ruanda tem investido na melhoria das escolas públicas
É verdade que o Ruanda tem realizado investimentos importantes no seu sistema público de educação.
Segundo o Banco Mundial, o país implementou investimentos significativos em infra-estruturas escolares e formação de professores. Entre os resultados do projecto de melhoria da educação básica estão a construção de 22 mil salas de aula e 31 mil latrinas, além da formação de mais de 78 mil professores em áreas como competências digitais, língua inglesa e pedagogia.
Esses investimentos demonstram esforços relevantes para melhorar a qualidade e o acesso à educação no país.
Mas investimento na educação pública não significa que as escolas privadas tenham deixado de existir ou que estejam a fechar por não conseguirem competir com o sector público.
A qualidade da educação ainda enfrenta desafios
Outro elemento que contraria a afirmação viral é o facto de instituições internacionais continuarem a identificar desafios relacionados com a qualidade da aprendizagem no Ruanda.
Num relatório sobre educação, o Banco Mundial apontou problemas nos resultados de aprendizagem e destacou que a melhoria da qualidade continua a ser um desafio para o sistema educativo ruandês.
Mais recentemente, o próprio Banco Mundial afirmou que, apesar dos progressos alcançados pelo país na educação, ainda é necessário fazer mais para garantir que as competências adquiridas pelos estudantes correspondam às necessidades do mercado de trabalho.
Isso não significa que as escolas públicas ruandesas sejam de baixa qualidade. Significa apenas que não é possível usar os progressos registados no sistema público para concluir que as escolas privadas estão a fechar por falta de procura ou por serem inferiores.
De onde pode surgir a confusão?
A publicação parece misturar dois factos distintos: existem escolas privadas no Ruanda que foram encerradas ou que deixaram de funcionar e o Governo ruandês tem implementado políticas e investimentos para melhorar a educação pública.
A partir desses dois factos, a publicação estabelece uma relação de causa e efeito — “as escolas privadas fecham porque as públicas têm qualidade” — que não é demonstrada pelos dados oficiais.
Além disso, o relatório estatístico mais recente do MINEDUC continua a contabilizar 1.337 escolas privadas no país.
Veredicto do Verifica.ao: FALSO
É falsa a afirmação de que as escolas privadas no Ruanda estão a fechar porque as escolas públicas “têm qualidade”.
É verdade que o Ruanda tem investido significativamente na melhoria da educação pública e que determinadas escolas privadas foram encerradas.
Contudo, os dados oficiais não demonstram que esses encerramentos sejam consequência da suposta superioridade das escolas públicas. Pelo contrário, o MINEDUC contabilizou 1.337 escolas privadas em 2024/2025, mostrando que o sector privado continua presente no sistema educativo ruandês.
A verificação do Verifica.ao mostra, portanto, que a publicação transforma acontecimentos distintos numa relação de causa e efeito que não encontra respaldo nos dados disponíveis.
Fique atento ao Verifica.ao
Informações sobre outros países também podem ser utilizadas para criar narrativas enganosas nas redes sociais, sobretudo quando um dado verdadeiro é apresentado fora do seu contexto.
O Verifica.ao continuará a acompanhar alegações de interesse público e a confrontá-las com documentos oficiais, dados e fontes credíveis.
Estamos aqui para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham acesso a informação precisa, confiável e verificada.
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